ACESSO ÀS AÇÕES E SERVIÇOS DE SAÚDE DAS CRIANÇAS COM SÍNDROME CONGÊNITA DO ZIKA VÍRUS NA REGIÃO METROPOLITANA DO RECIFE: UM OHAR PÓS-EMERGÊNCIA SANITÁRIA
Acesso aos Serviços de Saúde; Síndrome Congênita de Zika;
Infecção Congênita por Zika; Atenção Básica à Saúde; Atenção Terciária de Saúde
A epidemia de Zika vírus no Brasil resultou no nascimento de crianças com
Síndrome Congênita do Zika (SCZ), caracterizada por anomalias estruturais e
funcionais que comprometem o desenvolvimento infantil. Essas crianças demandam
cuidados contínuos e especializados, impondo desafios à rede de serviços de saúde.
Apesar da visibilidade inicial, a atenção a essas famílias foi reduzida no período pós-
Emergência Sanitária da epidemia, evidenciando fragilidades na rede de serviços e
nas políticas públicas. Este estudo teve como objetivo analisar o acesso às ações e aos
serviços de saúde de crianças com SCZ na Atenção Básica e Especializada, no
contexto pós-emergência sanitária, na Região Metropolitana do Recife.
Especificamente, buscou caracterizar o perfil sociodemográfico das crianças e de suas
mães e/ou cuidadoras; descrever as condições de saúde e necessidades de cuidados
das crianças; identificar fatores dificultadores do acesso aos serviços de saúde nas
diferentes etapas do cuidado e relacionar os resultados às dimensões do acesso e às
capacidades propostas pelo modelo teórico de Levesque, Harris e Russell (2013).
Trata-se de estudo transversal, quantitativo a partir da Coorte Pediátrica conduzida
pelo Microcephaly Epidemic Research Group (MERG), vinculada ao projeto
“Impactos socioeconômicos e de saúde para famílias de crianças com Síndrome
Congênita do Zika Vírus ao longo do tempo”. Participaram do estudo 190 mães e/ou
cuidadoras de crianças com SCZ residentes na Região Metropolitana do Recife. A
coleta de dados ocorreu por meio de entrevistas presenciais com aplicação de
questionário estruturado contendo informações sociodemográficas, condições de
saúde e acesso aos serviços de saúde. Os resultados evidenciaram predomínio de
mulheres negras (75,7%), com ensino médio completo (61,1%) e dependência de
benefícios sociais, com destaque para o Bolsa Família (42,6%). Entre as crianças,
43,7% apresentavam atraso do desenvolvimento neuropsicomotor, incluindo autismo
e/ou Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade. As especialidades mais
demandadas foram pediatria (74,2%), odontologia (67,4%) e psicologia/psiquiatria
(50,5%). O acesso aos serviços ocorreu predominantemente por meio do Sistema
Único de Saúde, responsável por mais de 70,0% da assistência em pelo menos sete
especialidades essenciais. Entretanto, observou-se descontinuidade do cuidado,
especialmente em terapia ocupacional, em que 55,1% das crianças não receberam
atendimento no período analisado. Os principais fatores dificultadores foram filas de
espera (53,6%), ausência de profissionais nos serviços (43,3%) e dificuldade de
agendamento de consultas especializadas (30,9%). Além disso, 87,7% das famílias
relataram aquisição de medicamentos e insumos por compra direta em farmácias.
Conclui-se que o acesso às ações e aos serviços de saúde das crianças com SCZ
permanece marcado por desigualdades sociais, fragilidades organizacionais da rede
assistencial e limitações na continuidade do cuidado no contexto pós-emergência
sanitária. Os achados reforçam a necessidade de fortalecimento das redes de atenção,
ampliação da oferta de cuidados especializados e consolidação de políticas públicas
voltadas à atenção integral das crianças com SCZ.