SARADOS E PRECARIZADOS: o Discurso do Empreendedor de Si e a Precarização do Trabalho na Educação Física
Precarização do trabalho. Empreendedor de si. Educação Física. Decolonialidade.
Esta pesquisa teve como objetivo compreender de que maneira o discurso do “empreendedor de si” se relaciona com a precarização do trabalho de profissionais de Educação Física na cidade do Recife, a partir de uma perspectiva decolonial. De abordagem qualitativa, descritiva e exploratória, o estudo foi desenvolvido como uma pesquisa qualitativa básica, com inspiração etnográfica. A produção do material empírico envolveu observação participante em espaços públicos e privados, conversas informais com profissionais e entrevistas não estruturadas com nove desses interlocutores atuantes na orla de Boa Viagem, no Parque da Jaqueira, em uma academia e em um condomínio residencial. O material, composto pelas transcrições das entrevistas, pelas anotações do diário de campo, pelos registros das conversas informais e pelas fotografias produzidas durante as observações, foi submetido a uma análise descritiva e teórica. Os resultados evidenciaram uma organização do trabalho marcada pela combinação de vínculos celetistas, estatutários, temporários e autônomos, além de contratações por meio do Microempreendedor Individual e prestações informais de serviços. A pluriatividade, a fragmentação das jornadas, os deslocamentos constantes, a instabilidade da renda, a transferência de custos e riscos e a realização de atividades sem remuneração demonstraram que a precarização assumia dimensões contratuais, econômicas, temporais, corporais e subjetivas. O discurso empreendedor manifestava-se nas práticas de autogestão, no investimento permanente em qualificação, na construção de redes de contato, na divulgação dos serviços e na administração da imagem corporal, contribuindo para transformar problemas estruturais do mercado de trabalho em responsabilidades individuais. A perspectiva decolonial permitiu compreender que essas condições não atingiam todos os trabalhadores de maneira homogênea, sendo atravessadas por diferenças relacionadas aos corpos, à raça, ao gênero, à idade, aos saberes e aos territórios, que influenciavam as possibilidades de circulação, visibilidade, reconhecimento e acesso às oportunidades. Conclui-se que o discurso do “empreendedor de si” contribui para legitimar e aprofundar a precarização ao apresentar o esforço, a adaptação e a iniciativa individual como respostas para vínculos frágeis, renda instável e ausência de proteção social e trabalhista.