A RECONFIGURAÇÃO DA IDENTIDADE CULTURAL DO ARTESANATO NA MODERNIDADE: ENTRE A TRADIÇÃO E O MERCADO
Artesanato; Identidade cultural; Modernidade; Tradição; Mercado.
A tese parte do argumento de que a identidade cultural dos artesãos não desaparece diante das pressões da modernidade e do mercado, mas é continuamente reconfigurada por meio de negociações entre tradição, inovação e resistência simbólica. Em vez de uma substituição linear do tradicional pelo mercantil, o estudo sustenta que o artesanato contemporâneo se desenvolve em uma zona de tensão, na qual diferentes racionalidades coexistem: de um lado, o fazer ancorado em saberes herdados, vínculos comunitários e sentidos culturais compartilhados; de outro, as exigências de produtividade, circulação mercadológica, visibilidade e adaptação estética. A identidade artesanal, assim, é compreendida como processo histórico, relacional e situado, e não como essência fixa. O objetivo geral da pesquisa consiste em analisar de que maneira as pressões da modernidade influenciam a identidade dos artesãos em uma comunidade do interior de Pernambuco. Para alcançar esse propósito, a tese investiga as mudanças na prática artesanal, busca compreender como os artesãos percebem as transformações em sua identidade cultural e examina as estratégias que utilizam para preservar sua atividade e garantir sua continuidade. O referencial teórico organiza-se principalmente em torno de Hall (2022), cuja noção de identidade cultural como construção processual, fragmentada e continuamente negociada constitui o eixo central da análise. A esse núcleo articulam-se contribuições de Bauman (2001), para pensar a fluidez e a insegurança da modernidade e Canclini (2013), para compreender os processos de hibridação cultural e a mercantilização da cultura. Os principais resultados mostram que o artesanato investigado já não se sustenta em referenciais estáveis e unívocos. A análise identificou três macro dimensões articuladas: transformações na prática artesanal, reconfigurações da identidade dos artesãos e estratégias de negociação entre tradição e mercado. Verificou-se que o fazer artesanal se tornou mais reflexivo, planejado e voltado à circulação ampliada dos produtos; que a identidade do artesão passou a incorporar autoria, marca, reconhecimento e visibilidade pública; e que a continuidade do ofício depende da capacidade de reinterpretar o legado tradicional em contextos contemporâneos. Assim, a pesquisa conclui que a identidade artesanal não é dissolvida pela modernidade, mas reconstruída de forma híbrida, preservando manualidade, memória, vínculos familiares e sentidos culturais, ainda que sob tensões crescentes com a lógica mercadológica.