“SER ÁGUA O TEMPO TODO”: interseccionalidade, afroempreendedorismo e culinária ancestral na trajetória de uma mulher negra no Recife
Interseccionalidade; afroempreendedorismo; culinária ancestral; turismo cultural; mulheres negras.
Esta dissertação teve como objetivo analisar como as intersecções de raça, gênero e classe atravessam a trajetória de uma mulher negra afroempreendedora da culinária ancestral no contexto urbano e turístico do Recife, a partir de suas narrativas e práticas. Ancorada na perspectiva da interseccionalidade, a pesquisa adota uma abordagem qualitativa, utilizando a história de vida como estratégia metodológica, articulada à observação direta não participante e à análise de discurso, por meio da triangulação de dados. Os resultados evidenciam que o afroempreendedorismo da culinária ancestral se apresenta como prática que extrapola a dimensão econômica, operando simultaneamente como estratégia de sobrevivência material, produção cultural, afirmação identitária e ação política. A análise demonstra que a culinária ancestral, protagonizada por uma mulher negra, reinscreve memórias coletivas e saberes historicamente marginalizados no espaço urbano e turístico, tensionando narrativas eurocentradas que deslegitimam práticas culturais negras. As intersecções de raça, gênero e classe emergem como estruturantes da trajetória analisada, revelando como desigualdades históricas coexistem com formas cotidianas de reexistência e produção de pertencimento. Conclui-se que a culinária ancestral, no contexto investigado, configura-se como dispositivo de resistência simbólica e material, contribuindo para a ampliação dos debates sobre turismo cultural, afroempreendedorismo e desigualdades sociais, ao reconhecer práticas culturais negras como formas legítimas de trabalho, conhecimento e transformação social.