OS GESTOS DOS BEBÊS E AS CRIAÇÕES CURRICULARES: OU SOBRE
EXPERIMENTAÇÕES INVENTIVAS NOS ENCONTROS COM E ENTRE BEBÊS
Cartografia; Currículo; Bebês; Gestos; Educação Infantil.
A tese “Os Gestos dos Bebês e as Criações Curriculares: Ou Sobre Experimentações
Inventivas nos Encontros com e entre Bebês” cartografa os modos pelos quais os bebês
produzem currículo nos desvios, nas dobras e nas correntezas do cotidiano da creche. A
investigação parte do entendimento de que os gestos, toques, olhares, balbucios,
deslocamentos, hesitações constituem potências que fabricam mundos e inauguram linhas
de pensamento. Inspirada na filosofia da diferença e seus intercessores (Deleuze e
Guattari 1992,1995,2011; Ferraço,2011; Carvalho, 2009,2012), na epistemologia dos
afetos (Escóssia, Passos e Kastrup. 2009) e nas teorias pós-críticas do currículo (Corraza,
2001, 2013), a pesquisa propõe compreender o currículo como território em devir, tecido
a partir de forças pré-individuais, movimentos errantes e invenções sensíveis entre bebês
e docentes. Metodologicamente, assumimos a cartografia como gesto de pesquisa para
acompanhar processos, seguir linhas fugidias, escutar o que vibra antes de virar palavra,
escrever com o chão do berçário. Assim, os capítulos percorrem linhas de gestos e
infâncias, cartografias dos deslimites das palavras, achadouros de produções científicas
sobre bebês, creches e currículo, além de mapas das experiências vividas em encontros
cotidianos sobre almofadas, brinquedos e territórios de passagem. Nos mapas do
acontecer, a pesquisa se deixa puxar pelos próprios bebês, por suas derivas, por suas
conversações em língua de bebê, por seus modos de fabricar espaços e abrir frestas
curriculares. Falar de gestos, aqui, significa entrar num campo onde não há moldura
estável. O gesto é dobra, acontecimento, dobra outra; é aquilo que, ao mesmo tempo,
interrompe e inaugura. Como anuncia Olarieta (2015), gestos que interrogam, que
deslocam, que multiplicam. Nos movimentos dos bebês, emergem currículos-brinquedo,
currículos andarilhos, currículos errantes, onde a aprendizagem se faz no toque, na
exploração, na improvisação e na invenção coletiva. As análises desenvolvidas ao longo
dos capítulos evidenciam que bebês fazem currículo, criando trilhas que se tornam
caminho, abrindo territórios de sensibilidade e produzindo cartografias afetivas que
transformam o cotidiano da creche. As conversações, as escritas em diário de campo, os
deslocamentos dos corpos e as experiências pré-individuais (Simondon) explicitam um
currículo que pulsa, que escapa às hierarquias, reinventa nas práticas e nas relações. Ao
compor uma visão panorâmica que atravessa o mapeamento histórico da creche, os
documentos oficiais, as narrativas docentes e as linhas das infâncias, a tese afirma que
considerar os bebês como sujeitos praticantes-pensantes desloca de forma poética o
campo curricular. A pesquisa conclui que as infâncias produzem outros currículos
possíveis, de natureza sensível, relacional, coletiva, poética e inventiva, abrindo dobras
onde emergem afetos, encontros e mundos por nascer.