VOZES DAS BENZEDEIRAS NO AGRESTE PERNAMBUCANO: autoidentidade, saberes, espiritualidade e comunidade
saberes das benzedeiras; (auto)identidade cultural; espiritualidade; comunidade.
Esta dissertação, realizada no Programa de Pós-Graduação em Educação Contemporânea da UFPE – CAA,
propõe uma análise da atuação contemporânea das benzedeiras, concebidas como depositárias e
transmissoras de saberes populares ancestrais, cujas práticas se articulam com a formação cultural e
espiritual de comunidades periféricas no interior do nordeste do Brasil. O estudo parte da problematização
sobre como esses saberes são preservados, transmitidos e reconhecidos social e educacionalmente,
norteando-se pela pergunta: como as benzedeiras se autoidentificam e como seus saberes são herdados e
transmitidos às novas gerações? O objetivo geral da pesquisa é compreender a autoidentificação das
benzedeiras, bem como os processos de transmissão e as vivências de seus saberes nas comunidades do
agreste pernambucano. Entre os objetivos específicos estão: identificar historicamente as várias identidades
atribuídas às mulheres benzedeiras; descrever os processos e vivências dos saberes que praticam; perceber
o alcance social e a serventia terapêutica dessas práticas e, por fim, analisar as possibilidades de
reconhecimento desses saberes no contexto escolar. A pesquisa envolve cinco participantes do município
de Garanhuns – PE, sendo duas benzedeiras, duas pessoas atendidas por elas e uma pessoa representado a
instituição da escola, permitindo compreender os saberes e práticas a partir de diferentes perspectivas. As
benzedeiras combinam rezas, uso ritualístico de ervas e gestos simbólicos, constituindo um sistema de
cuidado integrado que ultrapassa as ciências da saúde e se ancora em dimensões espirituais, afetivas e
comunitárias. Embora muitas vezes desvalorizadas ou estigmatizadas, suas práticas constituem formas
legítimas de conhecimento e cuidado, transmitidas intergeracionalmente por meio da oralidade, da
convivência cotidiana e da observação prática. A pesquisa adota como metodologia a abordagem
qualitativa, descritivo-exploratória, adequada à compreensão de fenômenos simbólicos, subjetivos e
culturalmente situados e, teoricamente, fundamenta-se em autores clássicos e contemporâneos como
Zumthor (1993), Brandão (1986), Canclini (1997), Derrida (2000), Fanon (2008), Freire (2022). Os
resultados indicam que a benzeção constitui uma forma de educação presente no cotidiano, alinhada à
perspectiva freireana, na qual o ofício da benzedeira se configura como uma pedagogia do cotidiano que
educa para a vida, integrando dimensões orais, corporais, comunitárias, afetivas e espirituais. Evidencia
que a autoidentificação das benzedeiras reúne e articula as questões de gênero, religiosidade cuidado e
poder simbólico. Outrossim, os saberes dessas sacerdotisas populares não salvam apenas vidas; salvam
histórias, memórias e esperanças. Ademais que esses saberes são tradicionais e simultaneamente
dinâmicos pois permitem conhecimentos de outras tradições espirituais, incluindo o alinhamento dos
chakras. Acrescenta ainda que o ato de benzer comporta educar para a vida(conselhos), ensinar pela fé e
pelo exemplo, traduzindo-se numa pedagogia da vida.