JOGANDO HISTÓRIA E NARRANDO CAPOEIRA: NARRATIVAS, CONSCIÊNCIA HISTÓRICA E ENSINO DE HISTÓRIA.
cantigas de capoeira; consciência histórica; ensino de História; educação antirracista; epistemologia afro-brasileira; colonialidade do saber.
Esta dissertação investiga as cantigas de capoeira — ladainhas, quadras e corridos — como formas legítimas de produção de sentido histórico, analisando sua potência como dispositivo pedagógico para a formação da consciência histórica discente e para a promoção de uma educação antirracista, em conformidade com a Lei 11.645/2008. O problema de pesquisa parte do diagnóstico de que o ensino de História, mesmo após a referida legislação, incorporou novos sujeitos e narrativas afro-brasileiras sem deslocar a matriz epistemológica eurocêntrica que organiza o currículo — o que Aníbal Quijano nomeia como colonialidade do saber e Boaventura de Sousa Santos descreve como pensamento abissal. A hipótese central é que as cantigas de capoeira constituem narrativas histórico-performáticas que, ao serem reconhecidas em sua densidade epistemológica e mobilizadas como dispositivo didático, acionam preferencialmente os tipos crítico e genético de consciência histórica identificados por Jörn Rüsen. A metodologia adotada é a análise narrativa, aplicada a um corpus de sete cantigas de autoria identificada — Mestre Toni Vargas, Mestre Bimba e Mestre Moraes — a partir de uma matriz analítica de seis categorias: estrutura narrativa, temporalidade, memória coletiva, moralidade, identidade e ancestralidade, e epistemologia mobilizada. O referencial teórico articula dois blocos em tensão produtiva: o bloco europeu-ocidental (Rüsen, Ricoeur, Koselleck, Chartier, Portelli) e o bloco afro-brasileiro e decolonial (Munanga, Rufino, Sodré, Nascimento, Quijano). A análise demonstrou que as cantigas atendem plenamente aos critérios europeus de historicidade — pertinência empírica, normativa e narrativa — e os excedem em quatro eixos: a temporalidade espiral em que o ancestral opera como força ontológica presente; o saber iniciático que só circula no interior da tradição; a epistemologia do corpo como mandinga e ginga; e o quilombo como sistema vivo de preservação epistemológica. O Capítulo 3 traduz essa análise em proposta pedagógica articulada às competências da BNCC, aplicável por professores sem formação prévia em capoeira. A pesquisa contribui ao demonstrar que trabalhar com cantigas de capoeira não significa apenas ensinar mais sobre a população negra brasileira, mas reconfigurar o modo como o conhecimento histórico escolar é produzido, validado e partilhado.