A CAPOEIRA NO PEDAÇO: O ENSINO DE HISTÓRIA E A PRODUÇÃO DE DIFERENTES E DIVERGENTES NARRATIVAS, NA EDUCAÇÃO BÁSICA DE BELO JARDIM/PE
Capoeira; Ensino de História; Educação antirracista; Identidade cultural; Lei nº 10.639/2003.
Esta dissertação analisa a capoeira como prática histórica, cultural e pedagógica, articulando-a às dimensões de ancestralidade, território e educação no contexto de Belo Jardim/PE. O estudo parte da compreensão de que o ensino de história, na educação básica, deve dialogar com as experiências e manifestações culturais presentes nos territórios, reconhecendo nelas potencial formativo, crítico e identitário. Nesse sentido, investiga-se a capoeira como conteúdo ou recurso didático e como linguagem de resistência, memória e produção de saberes. A pesquisa se desenvolve a partir da análise do estigma territorial e do imaginário social construído sobre determinados espaços urbanos, especialmente o bairro COHAB III, denominado nesta investigação como “pedaço”. Nesse território, a capoeira se configura como prática viva, vinculada à Associação Vida Jovem, que atende aproximadamente 250 crianças e adolescentes, constituindo-se como espaço de formação cidadã, pertencimento e reexistência. Ao considerar a ancestralidade como princípio organizador das experiências sociais e culturais, o estudo compreende a capoeira como expressão que articula corpo, memória e território, atualizando saberes historicamente marginalizados. Do ponto de vista metodológico, a investigação adota abordagem qualitativa, de natureza interpretativa, fundamentada em entrevistas semiestruturadas, observação participante e análise de documentos e narrativas orais de mestres e praticantes locais. a análise também dialoga com a historicidade da capoeira nos séculos XIX e XX, evidenciando suas múltiplas dimensões, entre repressão, resistência e reinvenção, e sua constituição como prática ancestral. No campo educacional, o estudo problematiza a inserção da capoeira na escola, discutindo as contradições entre sua apropriação como fetiche pedagógico e suas potencialidades como contradispositivo de racialidade. Ao mobilizar contribuições teóricas críticas, evidencia-se que a capoeira pode tensionar processos de epistemicídio e contribuir para a construção de práticas pedagógicas antirracistas, especialmente no ensino de história, possibilitando a abordagem de temas como identidade, memória, ancestralidade e território. Os resultados indicam que a integração entre escola e comunidade, mediada pela capoeira, fortalece vínculos culturais, amplia as formas de produção de conhecimento e contribui para a efetivação da lei nº 10.639/2003 que trata da obrigatoriedade do ensino de História da África e da Cultura Afro-brasileira. Conclui-se que a capoeira, ao ser compreendida como saber social, prática ancestral e patrimônio cultural, constitui-se como estratégia pedagógica potente para a reconstrução de narrativas históricas e para a formação de sujeitos críticos, capazes de reconhecer e valorizar suas experiências e pertencimentos.