“Na Rua da Guia tem Magia!”: memória, gênero, território e encatamento nas encantescrevivências das mestras da Jurema.
Mestras da Jurema; Encantescrevivências; Rua da Guia; Reencantamento.
Este trabalho é ponto afirmado na encruzilhada da Rua da Guia (Recife/PE), território presente na oralidade e no saber mágico da
Jurema Sagrada como morada das Mestras. Estas entidades são mulheres que, em suas trajetórias terrenas, habitaram as frestas da sociedade e
tiveram vidas marcadas por violências e mortes trágicas, transmutando-se, pelo encante, em autoridade espiritual. Ao tomar o encantamento
como epistemologia, propomos o conceito de encantescrevivências — um diálogo entre a escrevivência de Conceição Evaristo e os saberes da
Jurema — situando as narrativas das Mestras como o centro ontológico que sustenta e inscreve a pesquisa. A partir dessa perspectiva, a Rua
da Guia revela-se em sua complexidade: para além do estigma histórico do baixo meretrício e do apagamento das memórias femininas, ela é
compreendida como um território mágico-sagrado que acolhe as agências dessas entidades. Ao narrar trajetórias de dor, mas também de fé e
resistência, este trabalho transgride o silenciamento da história oficial. As encantescrevivências operam, assim, como uma política de
reencantamento, reconhecendo nas Mestras a potência ética para tensionar categorias ocidentais e o projeto de desencanto da ordem social. Ao
riscar este ponto entre a antropologia e a Jurema, a pesquisa busca visibilizar novas possibilidades de existência, onde humanos e mais-que-
humanos coabitam e reinventam o espaço urbano.