O reino encantado das cabocas brabas ou a terra da energia eólica pernambucana? Uma etnografia em meio ao desencanto do mundo
Cosmologia rural; Energia eólica; Território; Identidade; Impactos
socioambientais; Resistência.
O principal objetivo deste trabalho foi compreender como as populações
rurais do Vale do Riacho São José e entorno, situado na confluência das zonas rurais de
Caetés, Capoeiras, Paranatama, Pedra e Venturosa, no Agreste pernambucano,
percebem, interpretam e vivenciam a implantação dos complexos de energia eólica em
seu território. A problemática central gira em torno dos sentidos cosmológicos,
socioculturais e políticos atribuídos à presença das torres eólicas, bem como aos efeitos
produzidos por esse empreendimento em um universo previamente estruturado por
memórias, práticas e tradições enraizadas na percepção do território – a citar, por
exemplo os “sons do lugar”. Trata-se de uma pesquisa etnográfica, fundamentada na
observação participante, em registros fotográficos e cartográficos e na escuta da tradição
oral local, essa que compõem a memória discursiva das comunidades. O objeto de
estudo concentra-se na relação entre a cosmologia rural e as transformações impostas
pela instalação dos complexos eólicos, analisando como a população local elabora
simbolicamente tais mudanças e como estas incidem sobre sua identidade,
territorialidade e formas de pertencimento. A pesquisa evidenciou que no Vale do São
José é constituída uma cosmografia complexa, na qual humanos, santos, encantados,
almas, animais e elementos naturais integram um sistema relacional coerente, orientador
das práticas cotidianas e da ética territorial. Essa cosmologia, marcada pela confluência
de matrizes indígenas, africanas e cristãs, organiza modos de habitar, trabalhar e narrar a
terra, sustentando uma “cosmologia da terra” baseada na experiência sensível, na
tradição oral e na convivência com as presenças visíveis e invisíveis do território. A
chegada dos complexos eólicos, institucionalizada sob o discurso de progresso e
consolidada na narrativa oficial de “Terra da Energia Eólica”, redefiniu simbolicamente
o espaço, produzindo tensões entre os marcadores identitários tradicionais e o novo
enquadramento desenvolvimentista. Observou-se que, para além das transformações
físicas da paisagem — estradas, torres, linhas de transmissão e subestações —
ocorreram processos de desarticulação social, fragmentação das formas de negociação
comunitária e substituição de símbolos locais por signos vinculados ao capital
energético. Os impactos relatados ultrapassam a dimensão ambiental ou econômica,
alcançando esferas subjetivas, cosmológicas e relacionais. A intervenção no território
foi percebida como uma ruptura em um sistema integrado de significados,
desconsiderando saberes locais, hierarquias simbólicas e formas tradicionais de manejo
da terra. Contudo, também emergiram focos de resistência, articulações coletivas e
estratégias de enfrentamento que tensionam o modelo hegemônico de “transição
energética”, reivindicando reconhecimento territorial e respeito às cosmologias locais.
Conclui-se que os efeitos da implantação dos complexos eólicos no Vale do São José
não podem ser compreendidos apenas como impactos materiais, mas como
transformações profundas em um universo cosmológico e social historicamente
constituído. A disputa em torno do território revela, assim, um embate entre diferentes
regimes de sentido: de um lado, a racionalidade técnico-capitalista; de outro, uma
cosmologia relacional que orienta modos de vida, pertencimento e resistência.