DOSSIÊ PÊNDULA: Percepções espaciais para o alto
pintura mural; muralismo; processo criativo; prática artística; corpo-artista-atleta;
alpinismo industrial; arte pública; artes visuais.
Esta dissertação investiga a pintura mural em altura como prática artística situada na intersecção entre
corpo, técnica, espaço e criação, compreendendo-a como um campo expandido em que os
procedimentos pictóricos se articulam às dimensões materiais, políticas e sensíveis do ambiente
construído. A pesquisa parte da seguinte questão: de que maneira a experiência corporal da
verticalidade transforma os processos criativos da pintura mural contemporânea e produz novos modos
de pensar a relação entre arte, técnica e espaço urbano? O objetivo do conselho realizar e analisar a
construção de uma prática autoral de pintura mural em altura, tomando como eixo a noção de pêndula,
conceito desenvolvido ao longo da investigação para designar a condição oscilante do corpo suspenso
entre controle e imprevisibilidade. Para isso, articula referenciais provenientes da arte contemporânea,
da filosofia, da estética, da geografia, da educação e dos estudos do corpo, dialogando, entre outros,
com David Alfaro Siqueiros, Hélio Oiticica, Nicolas Bourriaud, Gilles Deleuze, Félix Guattari, Tim Ingold,
Henri Lefebvre, Pierre Restany, João Cabral de Melo Neto, Thiago de Mello, Ailton Krenak, Bell hooks,
Geni Núñez e Leonardo Boff. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa em artes visuais de caráter
qualitativo, fundamentada na prática artística como produção de conhecimento. O percurso articula
revisão bibliográfica, pesquisa documental, escrita de processo, registros visuais, desenvolvimento de
obras, formação em alpinismo industrial, experimentações técnicas em acesso por cordas e
acompanhamento dos processos de criação e execução de pinturas murais em diferentes contextos do
Nordeste brasileiro, entre os estados de Pernambuco, Bahia, Ceará, Paraíba e Piauí. A investigação
organiza-se em três movimentos complementares. O primeiro acompanha a trajetória da pintura em
escala humana até sua expansão para a arquitetura, evidenciando o ateliê como espaço permanente de
aprendizagem e retorno. O segundo compreende a pintura mural como campo expandido, discutindo
categorias como novo-muralismo, pichação poética e pintura mural externa, além de tensionar suas
relações com cidade, materialidade, arte pública e crises ambientais, políticas e epistemológicas
contemporâneas. O terceiro desloca a análise para o corpo da artista, examinando a incorporação de
procedimentos do alpinismo industrial, a preparação física, os protocolos de segurança, a logística de
execução, os processos de ancoragem e a produção de uma corporalidade híbrida, aqui denominada
corpo artista-atleta. Ao longo da pesquisa, o processo criativo ultrapassa o espaço da dissertação e se
desdobra em ações concretas de circulação artística. Entre 2024 e 2026, as investigações desenvolvidas
resultaram na produção e reformulação de obras, na experimentação de metodologias para pintura mural
em altura, na aprovação do projeto A rota vertical: muralismo e alpinismo pela Lei Rouanet (PRONAC
2513565), atualmente em fase de captação de recursos, e na seleção do projeto Ka'a-ting-a: expandindo
a anatomia da Mata Branca, voltado à programação continuada de museus e espaços de memória social.
Soma-se a isso o fato de que a presente pesquisa está sendo realizada com apoio da Política Nacional
Aldir Blanc (PNAB), da Secretaria de Cultura de Pernambuco (Secult-PE), em parceria com a
Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF), na Categoria I (Multilinguagens), tendo sido
selecionada em 2025 e com finalização prevista para 2027. Esses desdobramentos evidenciam que a
pesquisa opera simultaneamente como reflexão crítica, plataforma metodológica e campo de
experimentação artística. Conclui-se que a verticalidade não constitui apenas uma ampliação da escala
da pintura, mas produz uma transformação profunda da percepção, da técnica e do próprio sujeito que
pinta. Nesse contexto, a pintura mural em altura afirma-se como prática transdisciplinar capaz de articular
arte, ciência, educação, cuidado e espaço urbano, demonstrando que a obra não se encerra na imagem
produzida, mas se realiza também nos processos, nas relações e nas formas de existência que mobiliza.
O que se apresenta, portanto, além de um mapeamento do que já foi dito ou produzido, é também um
gesto em continuidade: uma escrita que acompanha um fazer, e um fazer que escapa à escrita. A
dissertação se desdobra em projeto artístico. O projeto artístico retorna como pensamento. E ambos
permanecem em processo.