O PAPEL DOS MACRÓFAGOS ASSOCIADOS A LIPÍDEOS NA RESISTÊNCIA À IMUNOTERAPIA ANTI-PD-1 NO CÂNCER DE MAMA TRIPLO NEGATIVO.
Câncer de mama; single-cell RNAseq; Macrófagos; Imunoterapia; Bioinformática.
O câncer de mama é o tumor mais frequente em mulheres no Brasil e no mundo, e apesar dos avanços terapêuticos na área, determinados subtipos moleculares como o câncer de mama triplo-negativo (TNBC, triple-negative breast cancer) persistem como um desafio para os sistemas de saúde devido a sua elevada agressividade. O TNBC, por sua vez, apresenta um microambiente tumoral (TME, tumour microenvironment) heterogêneo com subpopulações celulares associadas a diferentes desfechos clínicos, como no caso dos macrófagos associados à lipídeos que foram associados ao pior prognóstico em TNBC. Embora o advento das imunoterapias anti-PD1/PD-L1 tenha surgido como alternativa para o TNBC, muitas pacientes continuam sem responder a este tipo de abordagem terapêutica. Neste contexto, o uso de técnicas de sequenciamento de RNA de células únicas (scRNA-seq, single-cell RNA-seq) é de extrema valia para caracterização de populações de macrófagos e seu comportamento no TME frente ao tratamento. No respectivo estudo, foram utilizados seis conjuntos de dados de scRNA-seq de repositórios públicos contendo matriz de contagem bruta e informações clínicas de pacientes com câncer de mama e doadoras de amostras normais, totalizando 1.213.140 células após controle de qualidade e integração pelas ferramentas scVI e scANVI, respectivamente. Ao fim do primeiro nível de anotação, 13 grandes grupos celulares foram identificados e seguiram separadamente para reintegração e identificação de seus respectivos estados celulares. Entre os macrófagos, cinco estados celulares foram identificados entre residentes e derivados de monócitos, destacando-se os macrófagos associados à lipídeos (Mac-LA, população caracterizada pela expressão de genes como TREM2, LPL e FABP4 e com maior frequência em amostras TNBC, onde passam a utilizar um metabolismo oxidativo e adquirem perfil mais imunossupressor quando comparados aos Mac-LA de amostras saudáveis). Em pacientes não respondedoras (NR) após uma dose de anti-PD1, notou-se um aumento significativo dos Mac-LA em comparação não apenas com as respondedoras (R) (p < 0.01), como também em relação às não respondedoras antes do tratamento (p < 0.01). Em amostras de pacientes NR após uma dose de anti-PD1 os Mac-LA apresentaram aumento de expressão de genes associados à degradação de matriz como MMP7 e redução da expressão de genes associados à apresentação de antígenos como os HLAs, STAT1 e CD74, além da regulação negativa de vias relacionadas à ativação de linfócitos. Observando os eixos de comunicação celular entre os macrófagos e as demais células linfoides identificadas, os Mac-LA de pacientes NR após a primeira dose de anti-PD1 apresentaram enriquecimento para os eixos CCL4-CCR5 (com linfócitos T CD4 exaustos e NK citotóxicos) e CCL3-CCR5 (com linfócitos T CD8 exaustos), sugerindo o papel dos Mac-LA em modular os linfócitos a um estado disfuncional. Os resultados deste trabalho trazem uma caracterização detalhada dos Mac-LA no TME do TNBC e os principais mecanismos desta população relacionados à resistência a imunoterapia do tipo anti-PD1, identificando potenciais biomarcadores de resistência e elucidando o caminho para o desenvolvimento de novas terapias-alvo.