SUBJETIVIDADES SEXO-GÊNERO DISSIDENTES NO ENTRE-LUGAR DA NORMALIZAÇÃO E DA RESISTÊNCIA NA ESCOLA: NARRATIVAS LGBTQIAPN+ SOBRE O PROCESSO DE ESCOLARIZAÇÃO
Subjetividades. Norma. Resistência. Escola.
Todos os dias, corpos atravessam os portões da escola, ocupam seus espaços, aprendem modos de estar no mundo. Mas nenhum corpo entra na escola inteiramente pronto, tampouco sai incólume ao longo dos anos. O que esta pesquisa interroga é justamente isso: como se constituem subjetividades sexo-gênero dissidentes no espaço escolar, no entre-lugar da normalização e da resistência? Partimos da compreensão de que a escola integra uma complexa rede de práticas discursivas e não discursivas, por meio dos quais corpos, gêneros, sexualidades e modos de existência são normalizados, tornam possíveis, reconhecíveis e governáveis. Ao mesmo tempo, compreendemos, conforme Foucault (2012), que onde opera o poder também se irrompem as resistências, de maneira que os sujeitos sexo-gênero dissidentes não se configuram como receptores passivos da norma, mas permanente a tensiona, desloca, negocia e se reapropria dela, produzindo fissuras na norma e outros modos de habitar a experiência escolar. E desse modo, nos desvencilhamos da pergunta mais simples sobre o que escola faz aos sujeitos sexo-gênero dissidentes para examinarmos também aquilo que esses corpos fazem à escola e às normas, a pesquisa aposta na possibilidade de tornar visíveis as fissuras, contracondutas e reinvenções pelas quais outras gramáticas de existência, pertencimento e experiência educativa podem ser engendradas. Portanto, este estudo tem como objetivo geral investigar os modos de constituição de subjetividades sexo-gênero dissidentes no contexto escolar, a partir da normalização e como a norma cis-heterossexual é tensionada, deslocada e reapropriada pelos estudantes sexo gênero-dissidente pelo processo de resistência. Nossa investigação se orienta pela perspectiva pós-estruturalista e queer. Metodologicamente, assume-se uma perspectiva pós-qualitativa de inspiração pós-estruturalista, na qual pesquisar não se reduz a representar uma realidade previamente dada, como ingenuamente queriam os positivistas, mas produzir conhecimento situado, espacial e temporalmente, no encontro entre corpo-pesquisador e sujeitos da pesquisa, discursos, materialidades, afetos e contextos. Serão produzidas entrevistas narrativas com sujeitos sexo-gênero dissidentes, egressos ou estudantes de instituições públicas ou privadas, capazes de narrar retrospectivamente suas trajetórias de escolarização; prevê-se a composição de um grupo de quatro a seis participantes. As narrativas são concebidas aqui como produções perspectivadas da experiência passada, atravessadas pela memória, pelo esquecimento, afetações, pelo silêncio, assim como também envelopadas pelas condições históricas de enunciação. Posteriormente, na análise, utilizaremos ferramentas de análise do discurso de inspiração foucaultiana, especialmente no diz respeito aos enunciados, formações discursivas, posições de sujeito e articulações entre práticas discursivas e não discursivas.