A NECESSIDADE AFETIVA DE NATUREZA: MEMÓRIAS, NARRATIVAS E REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DE PROFESSORES
-Representações sociais; Natureza; Narrativas autobiográficas; Formação de professores; Geografia.
- Esta pesquisa retorna de uma longa travessia — não apenas pelo campo da ciência, mas pelo território íntimo da própria existência. Com o objetivo de compreender as relações entre as representações sociais de natureza partilhadas por professores de Geografia e suas experiências vividas, percebo ao longo desse caminho, que investigar a natureza nunca foi só estudar um objeto externo, mas reencontrar sentidos que já habitavam em mim, muitas vezes silenciados pela pressa, pela técnica e pelas exigências da vida acadêmica. A referida pesquisa tomou como base o encontro entre duas teorias de um lado as representações sociais e por outro a abordagem/método (auto)biográfico e nesse encontro foi possível revelar algumas descobertas. Do ponto de vista metodológico assumo o método biográfico e análise interpretativa compreensiva como oportunidades de descobertas (SOUZA, 2007; 2014). Assim, descobri que as representações de natureza são vivas, pulsam entre memórias, afetos e experiências. Elas não cabem apenas em conceitos: carregam histórias, dores, desejos e esperanças. Ao escutar outras narrativas, também escutei a minha — e percebi que, antes de ser teoria, a natureza foi presença: nas histórias das minhas avós, nos rios que tinham voz, na terra que era abrigo. Foi ali que aprendi, ainda sem saber, que a natureza não se explica por completo — ela se sente. Com o tempo, a universidade me ensinou a nomear, classificar, organizar. Mas, junto com esse saber, veio também um certo distanciamento — como se, ao explicar demais, eu tivesse me afastado do sentir. Na docência, esse conflito se tornou ainda mais evidente: entre o que acredito e o que consigo viver na prática, entre o desejo de uma educação sensível e as limitações do cotidiano escolar. Esta pesquisa, então, tornou-se um gesto de retorno. Um retorno às memórias, à infância, ao primeiro encantamento. Não como nostalgia, mas como reconexão. Entendi que é nesse reencontro que pode nascer uma forma mais inteira de ensinar — uma docência que não separa o saber da vida, nem o sujeito do mundo. Ao ouvir os participantes, percebi que cada um carrega sua própria maneira de viver e significar a natureza. Em comum, havia algo essencial: a experiência vem antes do conceito. A natureza aparece como espiritualidade, como trabalho, como ausência, como desejo, como corpo. E, nessas múltiplas formas, revela que ensinar Geografia é também ensinar modos de existir. Compreendi, assim, que a formação não se limita à academia — ela acontece ao longo da vida, nas histórias que contamos, nos silêncios que guardamos, nas experiências que nos atravessam. E que há uma urgência em aproximar o saber científico do saber vivido, criando pontes entre o conhecimento e a experiência. Ao final, não trago respostas fechadas. Levo perguntas, caminhos abertos e a certeza de que esta pesquisa também me transformou, como: estaríamos diante da possibilidade de inaugurar uma nova forma de pensar a própria Teoria das Representações Sociais? Uma abordagem que integre, de maneira mais radical, experiência, narrativa e subjetividade? Porque entender a natureza, afinal, é também um modo de entender a mim mesmo — e de reinventar, continuamente, a forma como existo, ensino e me relaciono com o mundo.