ATENÇÃO PLENA TRANSFORMATIVA PARA EDUCAÇÃO BRASILEIRA: UMA PERSPECTIVA DECOLONIAL
Atenção plena; Currículo; Decolonialidade; Relacionalidade; Educação brasileira
A atenção plena, para além de suas formulações acríticas e instrumentais, pode ser tomada como uma prática de relacionalidade, capaz de favorecer deslocamentos ontológicos e a emergência de outros modos de existir. Esse potencial torna-se decisivo no contexto da crise socioambiental contemporânea, que explicita o esgotamento de uma ontologia da separação, historicamente estruturada por dualismos como indivíduo e comunidade, cultura e natureza, bem como pela cisão entre educação e vida. Nesse contexto, o currículo, enquanto dispositivo colonial histórico rearticulado pela racionalidade neoliberal, opera como condição de possibilidade que limita a emergência de vertentes críticas e decoloniais da atenção plena. Diante disso, esta pesquisa tem como propósito analisar, em chave arqueogenealógica, a emergência do currículo como dispositivo colonial e compreender de que modo, na atualidade, ele sustenta a hegemonia de abordagens acríticas dessa prática no campo educacional brasileiro. Além disso, objetiva se elaborar uma compreensão de atenção plena transformativa decolonial, concebida como processo de subjetivação ético-político orientado por uma racionalidade relacional radical, capaz de favorecer a emergência de vertentes críticas desta prática no campo educacional. Metodologicamente, trata-se de uma investigação de inspiração foucaultiana, que articula ontologia política, arqueogenealogia, análise bibliográfica e um levantamento do estado da arte sobre a integração da atenção plena na educação brasileira. Os resultados apontam que o currículo, enquanto dispositivo colonial rearticulado pela racionalidade neoliberal, opera por meio de tecnologias disciplinares e biopolíticas que instauram lógicas de padronização, ordenamento avaliativo e eficiência-utilidade, sustentadas por dinâmicas de concorrência e responsabilização. Nesse regime, a atenção plena, em sua circulação dominante, é reconfigurada como prática implicada na produção de modos de subjetivação orientados à adaptação funcional dos sujeitos, articulando-se, de modo particularmente evidente, às dinâmicas de ordenamento avaliativo. Constatou se, ainda, a não consolidação de vertentes decoloniais dessa prática no campo educacional brasileiro, bem como a presença de abordagens que, embora mobilizem elementos críticos, permanecem predominantemente no nível discursivo. Por outro lado, os resultados também indicam que a atenção plena pode ser cultivada pedagogicamente como prática de relacionalidade, capaz de favorecer a abertura afectiva ao fluxo da vida e de sustentar processos de subjetivação ético-políticos orientados por uma racionalidade 12 relacional radical, contribuindo para a experimentação de outros modos de existir e para a criação de Currículos-Com-Vida no contexto educacional brasileiro.