“EU NÃO POSSO PERMITIR QUE OUTRAS PESSOAS PASSEM PELO QUE EU PASSEI”: AS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DE ESCOLA NAS MEMÓRIAS DE ESCOLARIZAÇÃO DE PROFISSIONAIS LGBTQIAPN+ DA EDUCAÇÃO BÁSICA
escola; representações sociais; memórias; gênero; sexualidade.
O estudo insere-se no campo das pesquisas em educação, gênero e sexualidade e tem como objetivo analisar as representações sociais de escola construídas por profissionais LGBTQIAPN+ que atuam na Educação Básica em Pernambuco, a partir das suas memórias de escolarização. Trata-se de uma pesquisa qualitativa realizada com 24 participantes. Os dados foram produzidos por meio de questionário e entrevista narrativa, examinados segundo o procedimento de Análise Temática Reflexiva (Braun e Clarke, 2019), orientado pela Teoria das Representações Sociais, considerando a articulação entre os níveis intrapessoal e posicional das representações sociais (Doise, 2002; Moscovici, 2003) e pelos estudos da memória (Halbwachs, 1990; Pollak, 1989). Os resultados indicam que a escola é representada de forma ambivalente e organizada em três eixos de sentido complementares e tensionados entre si. O primeiro eixo configura a escola como território de violência cotidiana, marcado por silenciamentos e experiências recorrentes de exclusão e estigmatização, mas também como espaço de acolhimento, promessa de futuro e construção do sujeito, no qual os vínculos afetivos possibilitam reconhecimento, pertencimento e projeções positivas da trajetória. O segundo eixo evidencia a escola como cenário central da descoberta da sexualidade, atravessado por conflitos internos e ausência de referências positivas, mas também por processos de elaboração identitária, expressando a articulação entre vivências individuais e normas sociais compartilhadas. O terceiro eixo desloca o foco para o presente e revela a escola como espaço de disputa simbólica e política, no qual o retorno desses sujeitos na condição de profissionais é ressignificado como gesto de (re)existência, reparação e compromisso ético-político com práticas de acolhimento e transformação institucional, evidenciando tomadas de posição vinculadas a pertenças sociais e trajetórias profissionais. À luz da vertente societal da TRS, compreende-se que tais sentidos não se restringem apenas ao nível intraindividual das memórias, mas expressam também posicionamentos socialmente situados, ancorados em sistemas de valores e relações de poder que organizam hierarquias e legitimam desigualdades no interior da escola. O diálogo com os estudos da memória evidencia que essas narrativas constituem reconstruções socialmente moldadas, por meio das quais passado e presente se articulam, influenciando modos de ser docente e formas de atuação profissional. Do ponto de vista teórico, o estudo contribui para o avanço do campo ao articular representações sociais, memória e pesquisas sobre gênero e sexualidades na educação, focalizando sujeitos LGBTQIAPN+ não apenas como estudantes, mas como profissionais que hoje produzem novas mediações e estabelecem disputas simbólicas na instituição escolar.