Na encruzilhada de uma não-teoria: percorrendo os caminhos do afro-surrealismo e do seu audiovisual
afro-surrealismo; onírico; estética audiovisual; poéticas e políticas do visível; estéticas pós/de/anti-coloniais.
Esta tese investiga o afro-surrealismo e suas manifestações no campo audiovisual, orientando-se em compreender como se configura a sua estética neste universo. Compreendido como um campo estético em expansão que articula crítica política, imaginação fabulatória e reinscrição sensível da experiência negra, subalternizada e marginalizada, o afro-surrealismo mobiliza a potência do onírico para tensionar realidades concretas e reconfigurar narrativas. A pesquisa busca identificar os elementos que estruturam essa estética, mapeando a rede de influências que compõe o afro-surrealismo; investigando-o como abordagem artística marcada por um sentimento estético e político combativo desde a segunda metade do século XX; compreendendo o onírico afro-surreal; analisando a operação da técnica e da linguagem cinematográfica na produção de imagens de enfrentamento e resistência; examinando o entrelaçamento entre sensível e político; e identificando os aspectos da realidade com os quais essas imagens dialogam. A hipótese sustenta que o afro-surrealismo não corresponde a um movimento nos moldes tradicionais, a uma poética isolada ou a um conjunto disperso de obras, mas se configura como uma abordagem artística emergente, costurada nas margens ao longo do século XX e reatualizada no presente. A metodologia combinou revisão bibliográfica, que consolidou o arcabouço conceitual da pesquisa, e análise fílmica comparativa, permitindo observar padrões, tensões e singularidades entre diferentes obras. Esse percurso evidenciou elementos como a oscilação entre verossimilhança e fabulação, a atuação de um onírico que reorganiza traumas e ancestralidades, o uso da técnica cinematográfica como ferramenta de resistência e a construção de atmosferas sensoriais que articulam política e sensível. Os resultados mostram que o audiovisual afro-surreal opera por uma estética oscilatória que mobiliza a fabulação e a distorção da realidade para desestabilizar narrativas hegemônicas e reinscrever existências marginalizadas no campo da representação. Conclui-se que o afro-surrealismo constitui uma gramática estética e política singular, cuja produção audiovisual expande modos de sentir, imaginar e narrar, instaurando novas possibilidades de percepção e existência para além das fronteiras impostas pela colonialidade.