INVENTÁRIO DE INFERNOS: Imagens de violência no cinema brasileiro deste século
Cinema brasileiro; Violência; Imagem-crime; Inventário; Afeto.
Esta tese investiga as configurações das imagens de violência no cinema brasileiro do século XXI, propondo um inventário crítico que articula estética, ética e política. Partindo de uma perspectiva autobiográfica e teórica, o trabalho analisa como o fascínio pelas imagens de violência opera na experiência cinematográfica nacional, distinguindo-a das representações estrangeiras. O trabalho desdobra o conceito de "imagem-crime", herdado de Alison Young, como operador analítico para examinar cenas limítrofes onde a violência irrompe na narrativa fílmica, tensionando as fronteiras entre representação e real. A pesquisa organiza-se em torno de filmes paradigmáticos do período 2001-2011: Bicho de Sete Cabeças (Laís Bodanzky, 2001) e a violência manicomial; Cidade de Deus (Fernando Meirelles e Kátia Lund, 2002) e a violência criminal; Carandiru (Hector Babenco, 2003) e a violência carcerária; além das abordagens documental e ficcional do caso Ônibus 174 (José Padilha, 2002; Bruno Barreto, 2008). A tese dialoga com um arcabouço teórico interdisciplinar que inclui Georges Didi-Huberman (pathos e emoção), Gilles Deleuze (imagem-movimento e imagem-tempo), Judith Butler (precariedade e enquadramento), Marilena Chauí (mito da não-violência brasileira) e Denise Ferreira da Silva (racialidade e violência total). O autor propõe o inventário como procedimento analítico-metodológico, reunindo membra disjecta (fragmentos dispersos) para relacionar imagens sem pretensão de totalidade. A tese identifica quatro modalidades recorrentes dessas imagens na filmografia brasileira: imagem-crime (o golpe/a arma), imagem-vítima (o corpo que sofre), imagem-vestígio (rastros de morte) e imagem-crise (pathos esvaziado).