Nada é orgânico, tudo é programado: a autenticidade simulada e o fenômeno das cyberinfluenciadoras
Inteligência artificial; Autenticidade simulada; Cyberinfluenciadoras; Performance de gênero; Consumo digital
Esta pesquisa investiga o fenômeno das cyberinfluenciadoras, influenciadoras virtuais baseadas em inteligência artificial que, a partir de 2021, conquistaram seguidores e parcerias comerciais em plataformas digitais. O problema central reside no deslocamento da autenticidade no consumo digital: questiona-se como figuras não humanas constroem vínculos de credibilidade e afeto com audiências reais. O objetivo geral é compreender as transformações do consumo na cultura digital, com foco naquilo que denominamos "autenticidade simulada", conceito que descreve a operação pela qual plataformas, marcas e equipes criativas atribuem a seres artificiais uma narrativa de trajetória de vida e coerência subjetiva, convertendo a autenticidade de atributo do sujeito em valor de mercado programável. A fundamentação teórica articula cinco eixos: o habitus de Bourdieu (1979); o simulacro de Baudrillard (1981); a representação do eu em Goffman (2014); a performatividade de gênero de Butler (1990), para analisar as normas de gênero reproduzidas por essas figuras; e Hao (2025), para compreender os mecanismos técnicos e políticos de sua produção e circulação. O percurso metodológico combina netnografia (Kozinets, 2014), para observação sistemática das interações em ambiente nativo, e análise de conteúdo, baseada no modelo de Bardin, atualizado por Sampaio e Lycarião (2021), com protocolo de categorias e inferências adaptado à comunicação digital. O corpus é composto pelos perfis do Instagram de quatro cyberinfluenciadoras: Miquela (@lilmiquela), Satiko (@iamsatiko_), Aitana (@fit_aitana) e Shudu (@shudu.gram). Como hipótese central, sustenta-se que as performances dessas figuras reproduzem identidades de gênero alinhadas a normas preexistentes, atuando como mecanismo de manutenção e reforço dessas normas no ambiente digital. A "autenticidade simulada", nesse sentido, não seria apenas um artefato técnico, mas uma lógica estrutural das plataformas que reconfigura o consumo como estética de si e estetização da vida cotidiana.