A REALIDADE É DIABÓLICA: A EMBRIAGUEZ, A LOUCURA E A POESIA EM INGMAR BERGMAN E ALAIN RESNAIS
Palavras-chave: Cinema. Poesia. Embriaguez. Loucura. Imagem.
O presente estudo tem como objetivo investigar as relações entre poesia e cinema a partir das formas de embriaguez e loucura que atravessam a experiência estética e a construção da linguagem cinematográfica em Ingmar Bergman e Alain Resnais. Partindo da compreensão de que o poético não se restringe à materialidade do poema ou a uma forma literária específica, esta pesquisa procura compreender de que maneira o cinema pode constituir-se como espaço de experimentação da linguagem, do sensível e das formas de percepção do mundo. Nesse sentido, a investigação parte da hipótese de que a poesia e o cinema encontram-se em um lugar fronteiriço, no qual a imagem, o signo, a montagem, a encenação, o som e a palavra estabelecem relações capazes de produzir outros regimes de significação. Para tanto, realiza-se uma abordagem comparativa das obras dos dois realizadores, com atenção especial a Såsom i en spegel (1961) e Persona (1966), de Ingmar Bergman, e L’Année dernière à Marienbad (1961) e Muriel (1963), de Alain Resnais, filmes nos quais a fragmentação, o sonho, a memória e a ruptura com a razão tensionam os limites entre a realidade, a imaginação e o sensível. No percurso analítico, a embriaguez é compreendida como dispositivo de ruptura com os modos ordinários de apreensão do mundo, enquanto a loucura surge como experiência capaz de deslocar as fronteiras do sensível e produzir formas dissensuais de percepção. Em Bergman, interessa sobretudo a relação entre encenação, subjetividade e fabulação poética. Já com Resnais, procuro dissertar sobre a fragmentação temporal, os jogos da memória e as fricções entre imagem e palavra constituem caminhos privilegiados para pensar o poético no cinema. Sob essa perspectiva, a partir das contribuições de Charles Baudelaire (1985; 1996), Walter Benjamin (1989), Pier Paolo Pasolini (1982), Jacques Rancière (2005; 2009), Octavio Paz (1982), entre outros, o trabalho sustenta que a aproximação entre poesia e cinema não se reduz a uma relação metafórica entre linguagens, mas constitui uma experiência de transgressão dos regimes convencionais da narrativa e da representação fenomenológica da existência. Busco, assim, compreender as poéticas cinematográficas de Bergman e Resnais como formas de criação que fazem da imagem um território de indagação sobre a existência, o sensível e os limites da própria realidade.