O pós-cinema e a ontogênese do vídeo sintético: configurações estéticas do artefato audiovisual gerado por IA.
Novos paradigmas de uma teoria da imagem-síntese, e uma análise da ferramenta Google Veo 3.
Vídeo sintético; Ontogênese da imagem; Índice e ícone; Google Veo 3; Pós-cinema.
Este trabalho investiga a ontogênese do vídeo sintético, a imagem audiovisual gerada por modelos de inteligência artificial sem qualquer captação, tomando o Google Veo 3 como caso. O problema que o orienta nasce da ruptura que esse tipo de imagem introduz no regime referencial que sustentou a imagem técnica desde sua consolidação fotoquímica: gerada por inferência estatística a partir de um corpus de treino, ela é a amostra de uma distribuição, não o rastro de um acontecimento. A abordagem é ontogenética, reconstruindo os deslocamentos que conduzem da imagem fotoquímica à computada e desta à sintética, e formaliza-se num modelo de quatro questões: Forma, Método, Mediação e Referência do Mundo, aplicado às funcionalidades do próprio Veo 3, tomadas como corpus porque o objeto da crítica não é a instância isolada, mas o modelo do qual ela é amostra. Essas funcionalidades são lidas pelos vídeos de demonstração que a fabricante expõe em sua vitrine, pela documentação técnica do sistema e por observações próprias, geradas para testar diretamente o comportamento de cada uma. A hipótese sustentada é que o vídeo sintético realiza uma reclassificação interna à semiótica de Peirce, e não uma perda do índice ou um colapso do referente: é um ícone que adquiriu a aparência visual de um índice, cujo referente se deslocou do acontecimento singular para a distribuição agregada do corpus. Índice do corpus e ícone do mundo, o vídeo sintético tem por unidade de operação a distribuição estatística, e não o dado armazenado. A opacidade constitutiva do dispositivo, sua condição de caixa-preta, é a condição sob a qual as quatro questões se investigam. A análise distingue duas ordens de falha: a inconsistência que é sintoma, porque revela o modo como o sistema produz suas imagens, e o defeito que é mero mau funcionamento, sem revelar nada além de si. Estudo de caso único, o trabalho busca demonstrar que a caracterização ontológica proposta opera sobre o material, sem pretender esgotar o objeto.