Não foi ciúmes: enquadramento do feminicídio no G1 Paraíba
Violência de gênero; feminicídio; jornalismo; enquadramento; G1 Paraíba.
Esta pesquisa investiga a cobertura dos casos de feminicídio realizada pelo portal G1 Paraíba ao longo do ano de 2023, analisando a seleção de enquadramentos jornalísticos e a ocorrência de desinformação acerca da violência de gênero. Foi adotada uma abordagem qualitativa, amparada pela Análise de Enquadramento e pela Análise de Conteúdo, aplicadas a um corpus composto pelas 27 notícias veiculadas no período descrito. Os resultados demonstram a predominância de narrativas centradas no fato criminal isolado, com total dependência de fontes oficiais/policiais, baixa utilização do termo "feminicídio" e utilização de manchetes que colocam a vítima em posição passiva sem destacar o autor da violência. Conclui-se que o padrão de cobertura analisado tende a reforçar enquadramentos que individualizam os crimes, a privilegiar a dimensão espetacular da violência, reduzindo a vítima à condição de corpo atingido e limitando a compreensão de sua trajetória, identidade e contexto social, o que corrobora para a desinformação pública sobre o tema. A pesquisa demonstrou ainda que a ausência de canais de denúncia e de orientações para mulheres em situação de violência é uma das lacunas mais recorrentes da cobertura. Por essa razão, propomos que toda notícia, nota ou reportagem relacionada à violência contra as mulheres contenha, de forma padronizada e visível, informações sobre os principais canais de apoio e denúncia. Mais do que uma recomendação editorial, esta pesquisa sugere que essa prática seja debatida como um dos pontos de qualquer política pública voltada ao enfrentamento da violência contra a mulher, para que sejam criados instrumentos normativos que tornem obrigatório a inclusão dessas informações em produções veiculadas em rádios e televisões por serem concessões públicas. Sugerimos também, como incentivo às empresas que adotem práticas orientativas e de prevenção à violência contra a mulher, a veiculação do selo “empresa amiga da mulher”. Como desde as nossas primeiras inquietações esteve presente a compreensão de que pesquisar feminicídio e jornalismo exige, também, um compromisso com a transformação da prática profissional, estamos entregando também o Manual de Práticas Jornalísticas para a Cobertura do Feminicídio. O produto surge como uma tentativa de devolver à sociedade parte do conhecimento produzido ao longo desta investigação, colocando à disposição dos jornalistas um material curto, acessível e aplicável ao cotidiano das redações. Mais do que apontar problemas, a proposta do manual é oferecer caminhos.