QUEM GOVERNA O QUE É BELO? A reconversão simbólica da Dove ao longo dos vinte anos da Campanha Dove pela Beleza Real
Publicidade; Inteligência Artificial; Dove; Capital simbólico; Governamentalidade.
Esta dissertação investiga como a marca Dove atualiza seu projeto discursivo diante das transformações nas formas de produção imagética provocadas pela inteligência artificial, tomando como objeto a trajetória da Campanha pela Beleza Real entre 2004 e 2024. Parte-se do problema de compreender de que maneira a legitimidade construída pela marca em torno da diversidade, da autenticidade e da representação de mulheres reais é mobilizada para ampliar sua autoridade discursiva em um novo contexto tecnológico. A pesquisa adota abordagem qualitativa fundamentada na Análise Temática de Braun e Clarke (2021), aplicada a um corpus composto por cinco marcos da campanha: Evolution (2006), Real Beauty Sketches (2013), Show Us (2019), Cost of Beauty (2023) e The Dove Code (2024). A interpretação dos resultados articula os conceitos de capital simbólico, de Pierre Bourdieu, e de
governamentalidade, de Michel Foucault, para compreender as permanências e transformações do projeto comunicacional da marca. A análise demonstra que a Campanha pela Beleza Real não se mantém pela repetição de um mesmo discurso, mas pela atualização contínua de seus objetos de intervenção. Ao longo de vinte anos, a Dove desloca sua atuação da crítica à manipulação digital das imagens para a produção de bancos de imagens, pesquisas, diretrizes e recomendações voltadas à criação de imagens por inteligência artificial. Esse movimento evidencia um processo de reconversão simbólica, no qual o capital simbólico acumulado pela marca é mobilizado para legitimar sua atuação sobre novos espaços de produção de sentido, preservando sua autoridade discursiva diante das transformações do campo comunicacional. Conclui-se que a inteligência artificial não representa uma ruptura na trajetória da Campanha pela Beleza Real, mas o contexto em que a Dove atualiza seu projeto discursivo, ampliando sua capacidade de disputar os critérios que orientam a produção contemporânea de imagens.