OBESIDADE EM PESSOAS IDOSAS: HISTÓRIAS SUBJETIVAS DOS EFEITOS NO CORPO DO ATO DE VORACIDADE PSÍQUICA
Envelhecimento, Obesidade, Saúde Mental, Qualidade de Vida.
Introdução: A obesidade em pessoas idosas é um fenômeno complexo e multifatorial, que evidencia não apenas fatores metabólicos, mas, frequentemente, a falha na escuta das dimensões subjetivas e emocionais que atravessam o envelhecimento. Objetivo: Este trabalho teve como objetivo analisar as experiências subjetivas de pessoas idosas com obesidade, valorizando a singularidade de suas trajetórias e desvelando os efeitos psíquicos dessa condição em seus corpos e rotinas de cuidado. Método: Trata-se de uma pesquisa de campo com abordagem qualitativa e exploratória, realizada com 10 pessoas idosas (sete mulheres e três homens, com idades entre 65 e 76 anos) atendidas no Ambulatório de Nutrição do Hospital Eduardo Campos da Pessoa Idosa (HECPI), no Recife. A coleta de dados foi feita por meio de entrevistas semiestruturadas e um questionário sociodemográfico. O método de análise adotado foi a análise de conteúdo de Birdin sob o viés psicanalítico, que permitiu a escuta aprofundada das narrativas. Resultados: A análise do material discursivo revelou a obesidade como um sintoma complexo, tecido por dores que a palavra não conseguiu simbolizar. Emergiram das falas categorias temáticas que evidenciam o corpo como um depositário de histórias de silêncio e resistência. Os
participantes narraram o envelhecimento como um confronto com o desamparo e o luto, mas também como um
tempo de reinvenção. A experiência subjetiva do corpo foi marcada pelo narcisismo ferido, manifestando-se como um “corpo-escudo” contra a invisibilidade social, um “corpo-fardo” que ameaça a autonomia, e uma “cela” que aprisiona em dores passadas. A alimentação emocional emergiu como uma “voracidade psíquica”, um ritual de preenchimento de vazios afetivos, onde o ato de comer revelou-se uma tentativa desesperada de anestesiar a solidão, a perda e o silêncio imposto por relações familiares marcadas pela renúncia feminina e pela rigidez masculina. Como potente contraponto, a espiritualidade surgiu como uma aliada fundamental, um "holding" simbólico que acolhe a angústia e oferece um sentido de proteção e pertencimento, configurando-se como um recurso vital de enfrentamento. Conclusão: As histórias subjetivas dessas pessoas idosas, cada qual simbolizada pela beleza e resistência de uma flor, demonstram que a obesidade na velhice transcende a dimensão biomédica. Embora vivam sob o peso do estigma e da dor, esses sujeitos encontram formas singulares de ressignificar suas trajetórias, ancorando-se na fé e no desejo de generatividade como fios que os mantêm vinculados à vida. A pesquisa conclui pela necessidade urgente de uma abordagem gerontológica mais sensível e integradora, que substitua a lógica da prescrição pela ética da escuta, acolhendo a história e a subjetividade
como partes indissociáveis do cuidado.