UTILIZAÇÃO DE Trametes lactinea NO BIOTRATAMENTO DE EFLUENTE TÊXTIL
fungos da podridão branca; lacase; enzimas ligninolíticas; biodegradação; biossorção; efluentes têxteis; imobilização enzimática; biochar.
O descarte de rejeitos da indústria têxtil vem, crescentemente, causando impacto ambiental considerável, afetando diretamente o ecossistema, incluindo o próprio ser humano. Desenvolver soluções que mitiguem esses impactos sem interferir de maneira prejudicial no ambiente é um desafio que demanda esforços tanto do ponto de vista financeiro quanto científico e, nesse contexto, a ação biológica de organismos no biotratamento de efluentes têxteis tem sido objeto de crescente interesse científico e social.
Diante dessa necessidade, foi realizada uma triagem com organismos capazes de descolorir efluente têxtil bruto proveniente de uma estação de tratamento de lavanderia no polo de confecções do Agreste de Pernambuco. Nessa triagem, Trametes lactinea apresentou o melhor desempenho, com 89,77% de descoloração e redução da toxicidade do efluente, confirmada por ensaios com Artemia salina. Apesar desses resultados, os mecanismos envolvidos ainda não estavam elucidados, especialmente considerando que T. lactinea é um fungo pouco explorado na biodegradação de efluentes e corantes têxteis, sendo sua compreensão fundamental para o desenvolvimento de estratégias que viabilizem sua aplicação em sistemas reais de tratamento, bem como para entender a influência de diferentes fatores nesse processo.
Sendo assim, foi avaliado o potencial enzimático do fungo, com ênfase na produção de enzimas ligninolíticas, confirmando-se a presença da enzima lacase. Sua atividade foi otimizada por meio da Metodologia de Superfície de Resposta (CCRD/RSM), resultando em um aumento de 113,83% em relação à atividade inicial. Adicionalmente, observou-se aumento na concentração de proteínas solúveis totais (0,95 ± 0,06) e na atividade específica (106,57). A enzima otimizada foi aplicada à descoloração do índigo carmim, alcançando a remoção completa (100%) após 14 dias de tratamento, sugerindo o papel da biodegradação como um dos mecanismos utilizados por esse organismo.
No entanto, o fungo também pode atuar na remoção de contaminantes via adsorção. Nessa perspectiva, avaliou-se a atuação de T. lactinea na remoção do corante índigo carmim em efluente têxtil sintético, por via adsortiva, utilizando sua biomassa inativada e liofilizada. Nesse estudo, foi obtida uma eficiência máxima de remoção de 97,7% do corante em condições ótimas: pH 2,5, dosagem de biossorvente de 2 g/L e concentração inicial de corante de 25 mg/L. Os modelos de isotermas apresentaram coeficientes de determinação (R²) de 0,90 (Langmuir) e 0,97 (Freundlich), enquanto os dados cinéticos foram consistentes com modelos de Pseudo-primeira e Pseudo-segunda ordem. Análises texturais indicaram aumento da área superficial e do volume de poros, com redução do diâmetro médio após a adsorção. Técnicas de caracterização evidenciaram alterações na biomassa, confirmando a adsorção como um dos mecanismos envolvidos.
Para aplicações em efluentes reais, o modelo via biodegradação mostrou-se mais promissor, especialmente pela facilidade de obtenção da enzima e pelo menor custo em comparação ao método adsortivo. Para isso, foram investigadas estratégias de imobilização da enzima lacase em biochar obtido de sementes de azeitonas (Olea europaea L.), utilizando métodos físicos e ligação covalente (NHS-EDC e APTES-glutaraldeído). Essas abordagens aumentaram a estabilidade enzimática, permitiram sua recuperação e reutilização e melhoraram a reprodutibilidade do sistema, favorecendo sua aplicação em condições reais e indicando o potencial dessa estratégia para o uso de enzimas produzidas por T. lactinea na biorremediação de efluentes têxteis, com perspectivas de escalonamento e aplicação em sistemas reais de tratamento.