ANÁLISE DE SEGURANÇA CONTRA INCÊNDIOS UTILIZANDO O SOFTWARE FIRE DYNAMICS SIMULATOR (FDS): Estudo de isolamento de risco (compartimentação) de uma edificação residencial térrea geminada
Segurança contra incêndios, edificações residenciais térreas geminadas, compartimentação, Fire Dynamics Simulator (FDS), projeto baseado no comportamento do incêndio.
No cenário brasileiro, os incêndios em edificações residenciais, especialmente nas tipologias geminadas, representam uma preocupação crítica devido à elevada incidência de sinistros e às severas perdas humanas e patrimoniais. A configuração construtiva dessas habitações, caracterizada pela justaposição de unidades e compartilhamento de elementos estruturais e de cobertura, favorece a rápida propagação do fogo e do calor entre residências adjacentes. Apesar dessa vulnerabilidade, existe uma lacuna significativa na legislação nacional: diferentemente dos edifícios verticais, as residências unifamiliares térreas são dispensadas de exigências de proteção passiva, resultando em um amparo legal deficiente e na ausência de critérios de segurança no projeto arquitetônico. Nesse contexto, a adoção de projetos fundamentados no comportamento real do incêndio surge como uma alternativa essencial às limitações das normas prescritivas vigentes. Esta abordagem permite a validação de soluções técnicas por meio de ferramentas avançadas, = como o software Fire Dynamics Simulator (FDS). Diante disso, este estudo propôs o desenvolvimento de uma metodologia de análise utilizando o software focada na calibração de modelos que aliam precisão técnica e eficiência de processamento. A metodologia iniciou-se com um estudo de sensibilidade e calibração, estabelecendo uma correlação entre o refinamento da malha computacional e a taxa de liberação de calor por unidade de área (HRRPUA). Os testes demonstraram que o uso de uma malha calibrada de 30 cm, ajustada a um HRRPUA de 225 kW/m², permitiu reproduzir com acurácia satisfatória as curvas teóricas de taxa de liberação de calor (HRR), prevista em normas, e de= temperaturas, medidas em um estudo experimental. Essa otimização reduziu o tempo de processamento computacional de 52 horas para apenas 1 hora, sem perda significativa de acurácia dos resultados, viabilizando a simulação de cenários complexos. Na sequência, foi desenvolvido um estudo de caso em uma edificação residencial térrea geminada, submetida a três cenários distintos de compartimentação. O cenário 1 (C1), que reflete a realidade da maioria das construções brasileiras sem barreiras no entreforro, revelou que o espaço entre o forro e o telhado atua como um reservatório de gases quentes e principal meio de propagação, comprometendo a segurança das habitações vizinhas em 38 min. O cenário 2 (C2), com barreiras estendidas até a cobertura, retardou a propagação para a habitação 2 em 32 min e impediu a propagação do incêndio para a habitação 3 (conservando a integridade de 33% da edificação), mas falhou ao permitir a propagação externa pelos beirais da fachada. Por fim, o Cenário 3 (C3), que implementou a compartimentação completa (incluindo extensão vertical e abas laterais) conforme modelos prescritos nas Instruções Técnicas (IT) do Corpo de Bombeiros da Polícia Militar do Estado de São Paulo (CBPMESP), provou ser a única solução capaz de confinar totalmente o incêndio à unidade de origem, preservando 66% do patrimônio. Conclui se que a análise orientada pela dinâmica do incêndio aliada à simulação computacional é útil para expor vulnerabilidades ocultas, como o risco do entreforro, provando que a exigência de compartimentação adequada é vital para a preservação da vida e do patrimônio, independentemente da obrigatoriedade normativa atual.