PROPRIEDADES DE CONCRETOS COM AGREGADOS RECICLADOS MISTOS SOB DIFERENTES CONDIÇÕES DE DOSAGEM
Resíduo de construção e demolição; agregados reciclados; concreto com agregado reciclado; resistência à compressão; dosagem de concreto
A utilização de agregados reciclados provenientes de resíduos de construção e demolição (RCD) constitui uma alternativa para reduzir a disposição desses resíduos e o consumo de recursos naturais pela construção civil. Entretanto, características como maior porosidade, absorção de água e heterogeneidade podem modificar o comportamento dos concretos nos estados fresco e endurecido. Nesse contexto, este trabalho avaliou as propriedades de concretos produzidos com agregados reciclados mistos de RCD, comparando seu desempenho ao de concretos produzidos exclusivamente com agregados naturais, visando verificar sua viabilidade para aplicação estrutural. Foram utilizados cimento Portland CP V-ARI, agregados naturais e agregados graúdo e miúdo reciclados mistos provenientes de usina de reciclagem de RCD. Os agregados reciclados apresentaram menor massa específica e maior absorção de água que seus equivalentes naturais, atingindo absorções de 18,0% para o agregado miúdo e 5,92% para o agregado graúdo reciclado. O esqueleto granular dos concretos foi otimizado por meio de uma mistura quaternária, sendo selecionada a curva com razão de empacotamento Pr = 0,90. Os concretos foram dosados pelo método IPT/EPUSP, com teor de argamassa de 50% e traços 1:3, 1:5 e 1:6, distribuídos em três grupos: GI-CNAT, constituído por agregados naturais; GII-CAGRCD, com agregado graúdo reciclado; e GIII-CAMRCD, com agregado miúdo reciclado. Foram adotadas duas condições de dosagem: A, sem aditivo superplastificante e com abatimento fixado em 100 ± 10 mm; e B, com 0,6% de superplastificante e relações água/cimento de 0,35, 0,51 e 0,61 para os traços 1:3, 1:5 e 1:6, respectivamente. Foram avaliados massa específica, teor de ar incorporado e consistência no estado fresco e resistência à compressão aos 7, 28 e 90 dias, totalizando 162 corpos de prova cilíndricos de 10 × 20 cm. No estado fresco, os agregados reciclados influenciaram a massa específica, o teor de ar incorporado e a trabalhabilidade, sendo observado aumento geral do teor de ar com o empobrecimento dos traços, que alcançou 9,24% no GIII-CAMRCD 1:6 da Dosagem B. No estado endurecido, a Dosagem B apresentou desempenho mecânico superior à Dosagem A na maior parte das condições experimentais. No traço 1:3 da Dosagem B, as resistências aos 90 dias atingiram 79,70 MPa para o GICNAT, 67,64 MPa para o GII-CAGRCD e 82,12 MPa para o GIII-CAMRCD. A análise estatística, realizada pelo método Aligned Rank Transform (ART), seguida de ANOVA sobre os postos alinhados e comparações múltiplas, confirmou efeitos significativos da dosagem, do tipo de agregado, do traço e da idade de cura, além da interação entre os quatro fatores. A Dosagem B foi estatisticamente superior em todas as combinações aos 90 dias, enquanto o traço 1:3 apresentou as maiores resistências em praticamente todos os cenários. Conclui-se que a utilização de agregados reciclados mistos de RCD não implica necessariamente perda de resistência mecânica, uma vez que foram obtidos desempenhos equivalentes ou superiores aos do concreto de referência em determinadas condições, destacandose o concreto com agregado miúdo reciclado. Os resultados demonstram, portanto, a viabilidade técnica do emprego desses materiais na produção de concretos, desde que sejam adequadamente controlados o tipo de agregado, o traço, a relação água/ cimento e o procedimento de dosagem.