MODELAGEM HIDROLÓGICA E HIDRODINÂMICA PARA AVALIAÇÃO DE INUNDAÇÕES URBANAS SOB INFLUÊNCIA DE MARÉ E MUDANÇAS CLIMÁTICAS EM ÁREAS CRÍTICAS DO RECIFE
Alagamentos Urbanos. HEC-RAS. SWMM. Mudanças Climáticas.
As cidades costeiras tropicais, como Recife, têm enfrentado crescente vulnerabilidade a inundações em razão da intensificação das chuvas extremas, elevação do nível do mar e expansão urbana desordenada. O conjunto desses fatores tem sobrecarregado os sistemas de drenagem urbana, especialmente em áreas planas e densamente impermeabilizadas, onde a influência direta das marés reduz a eficiência hidráulica e aumenta o risco de alagamentos recorrentes. Nesse contexto, esta tese analisou o comportamento hidrológico e hidrodinâmico de quatro áreas críticas do Recife — Canal Derby–Tacaruna, Rua Coelho Leite, Rua Gonçalves Maia e Bacia do Rio Jiquiá — integrando modelagens hidrológicas e hidrodinâmicas em diferentes escalas para avaliar o desempenho dos sistemas de drenagem sob condições atuais e futuras de precipitação e maré. Foram utilizados os modelos SWMM (microdrenagem) e HEC-RAS 2D (macrodrenagem), calibrados e validados com eventos reais ocorridos entre 2024 e 2025. Em todos os estudos, aplicaram-se cenários climáticos baseados no IPCC (RCP/SSP 8.5), considerando incremento de 13,26% nas precipitações intensas e elevação média de 0,82 m no nível do mar. As simulações permitiram comparar situações com e sem intervenções estruturais adaptativas, incluindo válvulas flap, estações elevatórias, reservatórios de detenção, galerias de grande porte em PEAD e comportas de controle de maré. Os resultados revelaram que, nos sistemas de microdrenagem localizados nos bairros de Santo Amaro (Rua Coelho Leite) e Boa Vista (Rua Gonçalves Maia), a rede existente apresenta desempenho satisfatório em eventos moderados, mas torna-se insuficiente diante decenários climáticos futuros, sobretudo quando há coincidência entre chuva extrema e maré elevada. A adoção de medidas adaptativas combinadas — especialmente válvulas de retenção, reservatórios e bombeamento — mostrou elevado potencial de mitigação, eliminando completamente os alagamentos no cenário atual e reduzindo em até 94% o volume de inundação projetado para o futuro. No Canal Derby–Tacaruna, as intervenções simuladas reduziram significativamente a lâmina d’água ao longo da Agamenon Magalhães, eixo crucial da mobilidade urbana do Recife. Para a Bacia do Rio Jiquiá, entretanto, os resultados indicaram que medidas estruturais isoladas possuem eficácia limitada em função da dimensão da bacia, da forte influência estuarina e das restrições geomorfológicas. Embora reservatórios de detenção tenham contribuído para pequena redução da área inundada (22,08% no cenário atual), o agravamento climático reduz esse efeito para 20,05%, evidenciando a necessidade de soluções integradas de grande escala, associadas à gestão territorial e infraestrutura verde. De forma geral, os achados demonstram que a resiliência hídrica do Recife depende da combinação entre modelagem robusta, planejamento integrado e implantação de medidas adaptativas em múltiplas escalas. A tese conclui que intervenções estruturais baseadas em evidências técnico-científicas são eficientes para enfrentar os cenários de mudança climática, desde que aplicadas de forma articulada e contínua. Os resultados oferecem subsídios importantes para políticas públicas, projetos de drenagem, planos diretores e estratégias de adaptação climática em cidades costeiras brasileiras.