O Código Operacional e a Política Externa: Lições sobre Trump e Bolsonaro durante a pandemia de COVID-19
Código Operacional; Tomada de Decisão; Política Externa e Crises; Liderança de Trump; Liderança de Bolsonaro
Esta tese examina os fundamentos teóricos e metodológicos do Código Operacional na análise da tomada de decisão em política externa, a partir da replicação de estudos clássicos e da investigação dos discursos de Donald Trump e Jair Bolsonaro durante a pandemia de COVID-19, com o objetivo de identificar padrões comparativos que revelem como os sistemas de crenças influenciam as respostas estatais em contextos de crise. O estudo adota uma abordagem metodológica mista, que integra revisão sistemática da literatura, análise secundária de dados, estudos de caso comparativos e métodos quantitativos. A revisão sistemática, realizada na base Web of Science, selecionou 28 estudos publicados entre 1995 e 2024, evidenciando a expansão geográfica e a diversificação metodológica do campo, com destaque para a predominância de pesquisas sobre líderes de grandes potências e o crescente interesse pelas abordagens cognitivas. O componente de replicação baseou-se no estudo de George (2014), ampliando a série temporal para abarcar crises norte-americanas de 1941 a 2019, e confirmou que líderes com percepções mais conflituosas e tendências punitivas demonstram maior propensão a adotar respostas violentas. Os estudos de caso sobre Trump e Bolsonaro aplicaram a metodologia desenvolvida por Walker, Schafer e Young (1998), utilizando o sistema Verbs in Context (VICS) para a análise de conteúdo dos discursos presidenciais. No caso de Trump, a análise de três fases da pandemia revelou mudanças significativas em crenças filosóficas e instrumentais, com progressiva deterioração da percepção cooperativa do ambiente político e a adoção de estratégias mais reativas e conflituosas. Para Bolsonaro, foram analisados 61 discursos em quatro fases, identificando-se uma trajetória de crescente pessimismo e confronto, marcada por inflexão decisiva no período da vacinação. A comparação entre os dois líderes destacou convergências nos padrões de mudança cognitiva durante a crise sanitária, bem como diferenças moduladas por contextos institucionais e culturais específicos. Os achados confirmam a hipótese de que sistemas de crenças relativamente estáveis atuam como filtros interpretativos que moldam as respostas políticas, mas demonstram também que crises prolongadas podem provocar reconfigurações substantivas nos códigos operacionais. A pesquisa contribui teoricamente para a compreensão da interação entre fatores cognitivos e estruturais na política internacional; metodologicamente, pela aplicação rigorosa de técnicas automatizadas de análise de conteúdo a contextos latino-americanos; e empiricamente, para o entendimento dos padrões cognitivos de lideranças populistas em crises globais. As implicações práticas incluem subsídios para estratégias de comunicação em crises, formulação de políticas de saúde pública e aprimoramento dos mecanismos de coordenação internacional em situações emergenciais.