RECIFE: ENCRUZILHADA DE HISTÓRIAS E PESSOAS - O Design como mediador para reconstruir, compartilhar o passado e refletir sobre o presente.
design; memória urbana; artefato digital
Esta tese investiga o papel do design como prática de mediação da memória urbana, tomando como objeto a escuta de narrativas situadas no bairro de São José, no centro do Recife. Parte-se da compreensão de que a memória da cidade não se restringe aos marcos materiais e aos registros oficiais, mas se constitui também nas experiências ordinárias, nos afetos e nas histórias compartilhadas por seus habitantes, frequentemente silenciadas pelos processos contemporâneos de reestruturação e mercantilização do espaço urbano. No Capítulo 1, apresenta-se uma contextualização histórica e crítica do bairro de São José, articulando sua formação urbana, suas continuidades com o bairro de Santo Antônio e as transformações recentes associadas à verticalização e à especulação imobiliária. A partir de autores como Milton Santos e David Harvey, discute-se a cidade como território de disputas simbólicas, evidenciando os apagamentos e tensões produzidos por projetos de modernização que fragilizam vínculos comunitários e memórias coletivas, com especial atenção ao caso do Cais José Estelita. No Capítulo 2, a pesquisa aprofunda a discussão teórica sobre memória, escuta e design relacional, defendendo a escuta como prática sensível, política e situada. Argumenta-se que o design, ao invés de operar apenas como dispositivo de representação, pode atuar como mediador de vínculos, criando condições para a emergência de narrativas plurais e para a reativação do sentimento de pertencimento urbano. No Capítulo 3, delineia-se o percurso metodológico da pesquisa, de natureza qualitativa, exploratória e interpretativa. A Teoria da Atividade fundamenta a compreensão da escuta como uma atividade mediada, culturalmente situada e atravessada por dimensões cognitivas, afetivas e sociais. Apresentam-se os procedimentos de coleta e análise das narrativas, bem como os cuidados éticos envolvidos no trabalho com memórias e relatos pessoais. No Capítulo 4, é apresentado o desenvolvimento do artefato digital, concebido como um dispositivo de escuta pública da cidade. Por meio do método 5W1H, são explicitadas as diretrizes conceituais, projetuais e técnicas do artefato, que se materializa como um webapp centrado na escuta de histórias orais geolocalizadas. O capítulo também discute referências de plataformas digitais e iniciativas de memória urbana, além da construção de uma proto-persona, que orienta as decisões de design a partir de um sujeito sensível às transformações da cidade. No Capítulo 5, analisa-se a experiência de uso do protótipo a partir de testes de aceitação realizados com treze participantes. A avaliação foi conduzida com base no Activity Checklist, instrumento derivado da Teoria da Atividade, considerando quatro dimensões analíticas: meios e fins, ambiente e contexto de uso, aprendizagem e articulação de significados, e desenvolvimento da atividade. Os resultados indicam que o artefato sustenta uma atividade significativa de escuta, evocando memórias, emoções e reflexões críticas sobre a cidade, além de fortalecer o sentimento de pertencimento urbano, mesmo em sua implementação parcial. Por fim, a pesquisa conclui que o artefato digital desenvolvido não se configura como produto final ou solução fechada, mas como uma plataforma aberta e expansível de mediação da memória urbana. A tese contribui ao demonstrar que a escuta, quando mediada pelo design, pode operar como gesto de cuidado, reconhecimento e vínculo, oferecendo diretrizes teóricas e projetuais para práticas de design comprometidas com a memória, a experiência e a vida cotidiana nas cidades brasileiras.