Cartografias subjetivas do Centro de Teresina - Pi: corpo, experiência e temporalidades
Teresina; centro urbano; carga simbólico-afetiva; experiência urbana; cartografias afetivas.
O problema central desse estudo se articula ao gesto questionador do poeta teresinense Paulo
Machado, na década de 1980, – Nas ruas da minha cidade há lições? (É preciso aprendê-las)
[...] – como um chamado à consciência social e ao olhar crítico para aquilo que faz parte do
cotidiano. No contexto do poeta, a cidade de Teresina já passava por um processo intenso de
mudanças urbanas e comportamentais, entretanto, os discursos e enunciados sobre a realidade
privilegiavam indicadores visíveis e dados estatísticos para sustentar diagnósticos que
deveriam considerar também as experiências vividas, as relações afetivas e as dimensões
simbólicas manifestas no espaço e a partir dele. De forma semelhante, é dessa tensão, entre a
cidade posta e a cidade sentida, que emerge esta pesquisa. Compreende-se que esse processo
contínuo de mudanças se inscrevem na materialidade do espaço e produzem impactos
concretos que não se esgotam em indicadores quantitativos, mas se estendem às experiências
cotidianas, aos modos de apropriação e às formas de vida que constituem a relação dos
sujeitos com a cidade. Assim, o objetivo geral da pesquisa está em investigar como os
vínculos simbólicos e afetivos com o Centro de Teresina se constituem e se modificam,
considerando as relações entre corpo, lugar e tempo. Para isso, em primeiro momento,
utiliza-se das noções de experiência sensorial encarnada e do corpo no espaço construído
(Pallasmaa, 2012), do lugar arquitetônico enquanto espaço vivido (Duarte et al., 2023), das
ressonâncias afetivas – através da experiência íntima do habitar – (Bachelard 2008) e das
atmosferas afetivas compartilhadas (Griffero, 2022). Partindo dessa articulação
fenomenológica, encontra-se nas formulações sobre micropolíticas urbanas de Rolnik (2011),
o aporte teórico-metodológico para a construção de cartografias subjetivas, e dos afetos
urbanos, que captam intensidades, acompanham processos e viabilizam possíveis formas de
leitura do território. O procedimento metodológico se dá por meio de três frentes articuladas:
da experiência situada da pesquisadora; da produção literária de Paulo Machado nas décadas
de 1970 e 1980; e das experiências cotidianas de jovens estudantes de uma escola localizada
no Centro (Ceti Zacarias de Góis ou, mais conhecido, como Liceu Piauiense), no ano de
2025. Dessa forma, o Centro de Teresina se apresenta como um território de disputa, cuja
carga simbólico-afetiva é continuamente redefinida pelas práticas, narrativas e
temporalidades que o constituem. As cartografias, por sua vez, se expressam tanto em
mapeamentos quanto na própria escrita da dissertação, mas não se esgotam, permanecem
abertas e inacabadas. Em vez de sustentar a ideia de nostalgia ou obsolescência, as variações
afetivas reveladas por essas cartografias serviram para evidenciar que o mesmo território
pode sustentar atmosferas distintas, conforme os regimes políticos, econômicos, midiáticos e
culturais que o atravessam. Além disso, essas variações podem ser mobilizadas para imaginar
futuros possíveis em que os espaços do Centro se tornem zonas de latência – micropoética e
micropolítica –, onde os sujeitos possam experimentar maneiras alternativas de viver e
reinventar o urbano.