A REPRODUÇÃO DAS OPRESSÕES DE GÊNERO, RAÇA E CLASSE NAS CIDADES E AS EXPERIÊNCIAS DAS MULHERES NEGRAS DA COMUNIDADE ARATU EM JOÃO PESSOA/PB
Espaço urbano; Interseccionalidade; Gênero; Raça; Comunidade Aratu/PB
O padrão de urbanização orientado pela lógica capitalista opera de modo excludente, conduzindo os grupos socialmente vulnerabilizados aos territórios periféricos, onde prevalecem as condições habitacionais mais precárias. As desigualdades urbanas afetam a todos, mas recaem com maior força sobre as mulheres, que compensam as carências da cidade por meio do trabalho de cuidado, frequentemente desconsiderado pelo planejamento urbano. A experiência feminina na cidade também é marcada pela raça: mulheres negras enfrentam as vulnerabilidades agravadas, visto que o racismo intensifica a violência e os abusos a que estão expostas. Neste contexto, esta dissertação propõe compreender as complexas relações entre a produção do espaço urbano e as opressões estruturais de gênero, raça e classe, que afetam de maneira desproporcional as mulheres negras, especialmente em comunidades periféricas. Toma como objeto de estudo a Comunidade Aratu, situada em João Pessoa/PB. Para isto, buscou-se analisar como o urbanismo racializado organiza a cidade e impacta o direito à cidade das mulheres negras periféricas, investigando a formação da Comunidade Aratu e o papel feminino neste processo, bem como suas condições de moradia, acesso a serviços e formas de organização coletiva. A Comunidade Aratu é considerada pelo IBGE (2019), uma favela ou comunidade urbana. Trata-se de uma pesquisa exploratória e de natureza quali-quantitativa, estruturada a partir de levantamentos de dados, observações em campo, entrevistas semiestruturadas e oficinas participativas. Os resultados evidenciam que as opressões de gênero, raça e classe se materializam no território da comunidade estudada por meio da localização periférica, das condições precárias de moradia, da ausência de infraestrutura urbana adequada e serviços básicos, do estigma territorial e a dificuldade de acesso à empregos formais, e da sobrecarga cotidiana imposta às mulheres, que assumem papel central na gestão das ausências do poder público. Esta pesquisa contribui para a compreensão das desigualdades socioespaciais a partir de uma perspectiva interseccional, evidenciando como gênero, raça e classe se articulam na produção e na vivência do território, especialmente nas experiências de mulheres negras em contextos periféricos.