O gesto jardineiro como componente imaterial do jardim histórico
gesto, jardineiro, imaterialidade, patrimônio, jardim histórico, saber, Sítio Burle Marx.
O presente estudo parte da compreensão do jardineiro como agente essencial na criação, perduração e fruição do jardim histórico, na medida em que o ato de jardinar envolve saberes específicos corporificados, promovendo um hábito e configurando um gesto que integra a dimensão imaterial do jardim. Esse gesto, orientado na terra, é também compreendido como um movimento de liberdade, capaz de expressar intencionalidade e uma relação sensível com o ambiente, aproximando o jardim da ideia de performance. Questiona-se, assim, se o jardineiro, por meio dessa relação, torna-se tão imprescindível para a apreensão do jardim histórico e sua conservação a ponto de se configurar como parte do bem patrimonial. Observa-se que, na maioria dos jardins históricos brasileiros, esse personagem não é reconhecido institucionalmente, nem há mecanismos de salvaguarda de seu exercício, o que contribui para a degradação do bem cultural. Para discutir a relação imaterial entre jardineiro e jardim histórico a partir de seu gesto, foi necessário o aprofundamento da categoria a partir do diálogo com Merleau-Ponty e Ingold sobre a relação entre saber e hábito, Clément, especificamente sobre o jardineiro e seu papel criativo, e Sennett e Flusser, voltados para o artífice e a dimensão expressiva do gesto. Somado a isso, ocorreu a pesquisa de campo com os jardineiros do Centro Cultural Sítio Roberto Burle Marx (SRBM), um dos últimos espaços remanescentes de jardineiros na esfera pública, analisando a dinâmica da relação jardim-jardineiro por meio de entrevistas, registros visuais e mapeamento, permitindo a identificação do gesto em suas dimensões criativa e conservadora. Os resultados demonstram a indissociabilidade entre jardineiro e jardim histórico, reposicionando o jardineiro nos campos do trabalho, da arte e do patrimônio.