Entre o estigma e a escrita: Lima Barreto, Vicente Mascarenhas e a construção do entre-lugar em Diário do Hospício e O Cemitério dos vivos
Lima Barreto; Diário do Hospicio; Cementério dos vivos
Esta dissertação analisa Diário do Hospício e O Cemitério dos Vivos, de Lima Barreto, com o objetivo de compreender como a experiência da internação psiquiátrica é transformada em elaboração estética e crítica social. Parte-se da hipótese de que essas obras ultrapassam o registro autobiográfico, articulando escrita de si, memória e ficção em um projeto literário de resistência às formas de exclusão da Primeira República. A pesquisa fundamenta-se nas reflexões de Michel Foucault (1978) acerca da institucionalização da loucura; de Antonio Candido (2006) e Alfredo Bosi (2002), sobre literatura e sociedade; de Osman Lins (1976), quanto à singularidade da escrita barretiana; de Philippe Lejeune (2014) e Maria do Socorro Barbosa de Miranda (2013), sobre a escrita de si; e de Homi K. Bhabha (1998), cujo conceito de entre-lugar constitui o principal eixo interpretativo da análise. O diálogo com Gayatri Chakravorty Spivak (2010), Frantz Fanon (2008), Silviano Santiago (2000) e Cida Bento (2022) amplia a discussão sobre identidade, decolonialidade e processos de silenciamento. Conclui-se que Diário do Hospício e O Cemitério dos Vivos transformam a experiência do confinamento em literatura, fazendo da escrita um espaço de elaboração da memória, construção da subjetividade e resistência às estruturas de exclusão. Demonstra-se, por fim, que o entre-lugar caracteriza não apenas a trajetória de Lima Barreto, mas também o princípio organizador de sua escrita.