Da ironia à perversão: o jogo do (in)dizível na formação discursiva presidencial no governo Bolsonaro
Discurso do Bolsonaro; consciente; perversão; tomadas de posição; cinismo
A presente pesquisa, fundamentada na Análise do Discurso pecheuxtiana, analisa os discursos do ex-presidente Jair Bolsonaro, em pronunciamentos públicos realizados por ele, durante o seu mandato. Para dar conta do que aqui proponho, mobilizo noções teóricas como sujeito, esquecimentos, tomadas de posição, ironia, cinismo e argumentação, para que, a partir das análises, seja possível pensar numa tomada de posição perversa, e se, de fato, há um funcionamento que se aproxima mais de uma ordem do consciente nos processos discursivos trabalhados nesta tese. Nesse sentido, o ponto de partida se dá através da noção da zona do rejeitado, proposta por Pêcheux (1969), para pensar como discursos, até então indizíveis no interior de uma FD Presidencial, se tornaram dizíveis, quando Bolsonaro enuncia do lugar social de presidente, confrontando sentidos estabelecidos socialmente. O corpus desta tese é composto por um recorte temporal – os anos do seu mandato – e um recorte temático – formado por discursos que confrontam a ciência, que são atravessados pelo religioso, e materializam a discussão sobre a ideologia. Tais recortes foram trabalhados por meio de pronunciamentos realizados pelo ex-presidente nos mais diversos ambientes e veículos, sob a materialidade que chamamos de discursos oficiais e oficiosos. A partir de uma tomada de posição perversa, existe um funcionamento que se aproxima da ordem do consciente, fazendo funcionar uma maior autonomia do sujeito no processo de seleção dos saberes do discurso. O que concluo, a partir das análises realizadas, é que o próprio poder concedido ao Presidente é usado para deturpar o lugar que ocupa, apresentando sua versão dos fatos, opondo-se, assim, à História, à realidade e ao saber científico. Nesse jogo pelo controle dos sentidos, observam-se funcionamentos irônicos, cínicos e, eventualmente, perversos, apontando para uma argumentação que funciona em propósito da destruição do outro, da aniquilação daqueles que julga seus inimigos. Esses elementos discursivos buscam ressignificar sentidos e escrever uma nova realidade que deturpa o lugar de presidente: seu papel não é de líder democrático, mas, sim, de um ditador inquestionável. Considerando a presença de uma instância consciente no processo discursivo, a proposta de uma tomada de posição perversa demonstra que, ainda que o sujeito seja constituído pelo inconsciente, há um espaço no entrecruzamento do lugar social e discursivo, na relação com a ideologia. Desse modo, o presente estudo demonstra que há um espaço para a exploração do funcionamento de um consciente na teoria e que este, como aqui analisado, se dá por meio de uma outra tomada de posição, além das teoricamente propostas, o que fundamenta a posição perversa na seleção e construção dos discursos.