MEMÓRIAS E(M) VOZES INSURGENTES DE ÚRSULA E PONCIÁ VICÊNCIO: CONEXÕES ENTRE MARIA FIRMINA DOS REIS E CONCEIÇÃO EVARISTO
Memória e ancestralidade. Maria Firmina dos Reis. Conceição Evaristo. Escrevivência. Vozes insurgentes. Comparatismo literário.
Nesta tese, realizo uma análise comparativa dos romances Úrsula (de Maria Firmina dos Reis) e Ponciá Vicêncio (de Conceição Evaristo) com o objetivo de investigar de que modo as dinâmicas da memória e da ancestralidade exercem função estruturante no processo de elaboração estética e de enunciação insurgente em textos da literatura negro-brasileira de autoria feminina. Ao levar em conta os diferentes contextos socioculturais de produção (o Brasil escravocrata do século XIX e a contemporaneidade marcada pelas permanências do racismo estrutural), estabeleço como hipótese que ambas as obras tematizam a experiência histórica de integrantes da comunidade negra e, sobretudo, instauram desdobramentos narrativos capazes de tensionar as formas canônicas de representação, ao inscreverem a memória como prática crítica e a ancestralidade como princípio de reorganização da subjetividade. Sob esse prisma, demonstro que Úrsula mobiliza estratégias contra-hegemônicas que desestabilizam (ainda que sob os limites históricos de sua produção) os sistemas escravistas e patriarcais, ao passo que Ponciá Vicêncio (escrita ancorada na noção de escrevivência) ressignifica os conflitos ao deslocar o lugar representacional para uma poética da memória encarnada, na qual vivência, linguagem e corpo se imbricam. A partir do percurso analítico desenvolvido, evidencio que, mais do que estabelecer continuidades temáticas, esses romances constituem formas distintas (e articuláveis) de construção discursiva da experiência negra, produzindo deslocamentos nos modos de narrar, de significar o passado e de inscrever vozes historicamente subalternizadas. Prioritariamente, fundamento o aporte teórico nas contribuições de intelectuais negras que problematizam as intersecções entre raça, gênero e poder (Akotirene, 2019; Carneiro, 2023; Gonzalez, 2020; Kilomba, 2019; Martins, 2021; Nascimento, 2018; Ribeiro, 2019; e Souza, 2021) em diálogo com os estudos da memória (Bosi, 2007; Halbwachs, 2013; Le Goff, 2012; e Ricoeur, 2007) e com a literatura comparada (Carvalhal, 2006; Coutinho, 1996; e Duarte, 2005). Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa de natureza bibliográfica e analítico-interpretativa, orientada pela identificação de procedimentos narrativos, regimes de enunciação e configurações da memória nas obras analisadas, tomando como eixo a colonialidade de gênero e de raça (Lugones, 2014). Ao final, demonstro que, conquanto sejam inscritas em temporalidades distintas, as diegeses estabelecem um campo relacional que, além de ressaltar a persistência de estruturas de opressão, explicita modos distintos de elaboração estética da insurgência, contribuindo para o fortalecimento crítico dos estudos literários voltados à produção negrofeminina no Brasil.