O governo da sociedade através da neutralização do conflito político.
Como a potência vital das subjetividades antagonistas dos anos 1960-1970 foi posta a trabalhar pelos dispositivos biopolíticos neoliberais.
Governamentalidade neoliberal; dispositivo biopolítico; subjetividade antagonista; neutralização do conflito político; General Intellect.
Este trabalho investiga como a arte de governo neoliberal, concebida como racionalidade biopolítica, produz subjetividades e formas de sociabilidade que tendem a neutralizar o conflito político e o antagonismo, ao mesmo tempo em que captura e reorienta a potência vital das lutas operárias e sociais das décadas de 1960–1970. Do ponto de vista teórico-metodológico, o trabalho articula a analítica foucaultiana do poder — especialmente os conceitos de governamentalidade, biopolítica e dispositivo — com a tradição italiana do operaísmo e do pós-operaísmo (Tronti, Negri, Lazzarato, Virno, Marazzi), além de mobilizar autores como Dardot, Laval, Chamayou, Agamben e Esposito. O dispositivo é tomado, à luz da leitura de Agamben, como conceito operativo de caráter geral e como paradigma das artes de governo: uma rede de práticas discursivas e não discursivas que cruzam saber e poder, organizando espaços, tempos, condutas e formas de subjetivação. A dissertação organiza-se em três capítulos principais. O primeiro capítulo realiza a genealogia da governamentalidade neoliberal e analisa os “dispositivos de insegurança social” como paradigma dessa forma de poder. O segundo capítulo opera uma inversão de perspectiva: em vez de pensar o poder como origem das formas de subjetivação, coloca-se o primado do antagonismo e da resistência na produção de novos dispositivos de poder. O terceiro capítulo recompõe essas duas linhas — foucaultiana e operaísta — sob a forma de um “dispositivo biopolítico da neutralização do antagonismo”. Analisa-se como a recusa do trabalho capitalista, enquanto produção ontológica e violência instituinte, e as capacidades vitais e produtivas comuns (General Intellect) são postas a trabalhar como resposta capitalista à difusão social do antagonismo. Em conclusão, a dissertação sustenta que, embora a razão neoliberal tenha sido capaz de capturar a potência das lutas e da cooperação social, esta captura permanece atravessada por uma ambivalência constitutiva: a vida que para ser governada precisa ser potencializada, conserva, por isso, a potência de reinventar, no interior mesmo dos dispositivos de neutralização, as condições de sua própria libertação. Portanto, aponta-se para a necessidade de uma reabertura do “comum” enquanto multiplicidade insurgente e de uma política que recoloque o conflito no centro da democracia, reaprendendo a fazer da vida não apenas matéria de governo, mas obra coletiva, capaz de mobilizar diferentemente a inteligência e os afetos comuns como fundamentos de uma democracia radical.