ALÉM DAS GRADES: PERSPECTIVAS CONSTRUÍDAS NA E SOBRE A CASA DE DETENÇÃO DO RECIFE (1880-1900)
Presos. Casa de Detenção do Recife. Século XIX.
O presente trabalho analisa a experiência prisional na Casa de Detenção do Recife, entre os anos de 1880 e 1900. Em um período de desarticulação do poder senhorial escravista e sob o horizonte de um novo regime político, as prisões se conformaram em espaços que permitem vislumbrar as mudanças e as permanências de uma sociedade em transformação. Nesse sentido, buscou-se contextualizar debates da época, tais quais os preceitos oriundos da reforma prisional, como o ideário correcional, cristalizados nos regulamentos da instituição, em contraponto ao que se vivenciava no seu dia a dia. Para tanto, privilegiou-se o foco no que era ser preso, sobretudo nas perspectivas construídas pelos apenados sobre suas trajetórias e o que possibilitasse entendê-las, tendo em vista que, ao tratar sobre suas próprias demandas, em torno da sobrevivência e da liberdade, terminavam por revelar a situação que viviam. Em contrapartida, o resgate do que era estar entre as grades passa também por compreender as concepções de quem estava do lado de fora e como elas refletiam internamente. Diante disso, foram analisados, primordialmente, as correspondências remetidas e recebidas pelos administradores, as petições escritas pelos presos, os relatórios dos presidentes da província e trechos de jornais. A partir da documentação, pode-se notar que o estabelecimento não era tão enclausurado quanto se pretendia, pois a relação com o mundo externo se estabeleceu em uma via de mão dupla, em que o que acontecia dentro ecoava para fora e o que se discutia extramuros tinha impactos no movimento rotineiro. Além disso, percebeu-se que esses indivíduos souberam mobilizar estratégias e readequaram seus interesses e comportamentos para ressignificar esse ambiente, seja em conformidade ou às margens do que lhes era autorizado.