AMOR CORTÊS E ESTUPRO NA LITERATURA MEDIEVAL: representações narrativas em Perceval ou Le Conte du Graal (1181) e no lai Guigemar (1160-1178)
Chrétien de Troyes. Violência. Estupro. Gênero. Literatura. Marie de France.
O presente trabalho propõe-se a analisar as narrativas de estupro construídas no período medieval, relacionando-as ao contexto do amor cortês, que emoldurou e legitimou normas de comportamento e ideais de amor na sociedade cortesã. Essa reflexão será ainda associada às concepções de gênero, sobretudo às representações socialmente construídas do “feminino” e do “masculino”, como discutido por Vern Bullough e Joan Scott. Para tanto, será analisado o episódio de estupro delineado nas seguintes obras: Perceval ou Le Conte du Graal (1181), de Chrétien de Troyes (1135-1191) e o lai Guigemar (1160-1178), narrativa de Marie de France (1160-1215), ambas consideradas obras-primas do período medieval. No primeiro caso, a narrativa acompanha a trajetória de Perceval, um jovem cavaleiro em formação que, ao longo de sua jornada, marcada pela transição da ignorância ao conhecimento, à fé e à compaixão, se destaca por introduzir o Graal como um mistério sagrado vinculado à experiência interior do herói; no segundo caso, acompanharemos o cavaleiro Guigemar que, após ser amaldiçoado por uma corsa, encontrará o amor em uma dama comprometida. Assim, sua jornada é marcada por dores, separações e aventuras que testam a constância e a lealdade do casal. Nesse sentido, concentro-me nos seguintes problemas de pesquisa: de que modo a representação feminina e, consequentemente, a representação masculina, influi nas narrativas de estupro delineadas nas fontes escolhidas? Além disso, como essas características específicas se manifestam nas obras? Nesse contexto, é possível traçar paralelos entre as abordagens masculinas e femininas mencionadas, no que se refere à condição das mulheres e à política sexual socialmente imposta durante a Idade Média?