ENTRE REPRESENTACOES E NARRATIVAS: a escrita do estupro em Chretien de Troyes (1135-1191) e Marie de France (1160-1215)
Chrétien de Troyes. Violência. Estupro. Gênero. Literatura. Marie de France.
O presente trabalho propõe-se a analisar as narrativas de estupro construídas no período medieval, relacionando-as ao contexto do amor cortês, que emoldurou e legitimou normas de comportamento e ideais de amor na sociedade cortesã. Essa reflexão será ainda associada às concepções de gênero, sobretudo às representações socialmente construídas do “feminino” e do “masculino”, como discutido por Vern Bullough e Joan Scott. Para tanto, será analisado o episódio de estupro delineado nas seguintes obras: Perceval ou Le Conte du Graal (1181), de Chrétien de Troyes (1135-1191). Considerada uma obra-prima da Idade Média, a narrativa acompanha a trajetória de Perceval, um jovem cavaleiro em formação que, ao longo de sua jornada — marcada pela transição da ignorância ao conhecimento, à fé e à compaixão —, se destaca por introduzir o Graal como um mistério sagrado vinculado à experiência interior do herói; e o lai Guigemar (1160-1178), narrativa de Marie de France (1160-1215), que acompanha a história de amor entre um cavaleiro e uma dama — não nomeada — marcado por dores, separações e aventuras, que testam a constância e a lealdade do casal. Nesse sentido, concentro-me nos seguintes problemas de pesquisa: de que modo a representação feminina e, consequentemente, a representação masculina, influi nas narrativas de estupro? Além disso, como essas características específicas se manifestam nas obras? Nesse contexto, é possível traçar paralelos entre as abordagens masculinas e femininas mencionadas, no que se refere à condição das mulheres e à política sexual socialmente imposta durante a Idade Média?