Ecologias de Exploracao: relacoes multiespecies entre humanos, caramujos e esquistossomos na Usina Catende (1930-1950)
História ambiental. Estudos multiespécies. Ecologias de exploração. Plantation açucareira. Esquistossomose. Modernização agrícola
Esta tese investiga as relações multiespécies entre humanos, caramujos Biomphalaria e parasitas Schistosoma mansoni na Usina Catende, Pernambuco, entre 1937 e 1945, propondo o conceito de “ecologias de exploração” como ferramenta analítica para compreender como a modernização agrícola articulou degradação ambiental, exploração social e colonização mental em dinâmicas de dominação simultânea. A pesquisa fundamenta-se na articulação entre a teoria das três ecologias de Félix Guattari, o conceito de assemblages multiespécies de Anna Tsing e a teoria ator-rede de Bruno Latour. Metodologicamente, analisaram-se atas do Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), edições da revista Brasil Açucareiro, relatórios sanitários de Geth Jansen (1943-1946), registros médicos e a cobertura jornalística do período. Os resultados demonstram que: (1) o Estado brasileiro financiou sistematicamente a modernização da indústria açucareira através do IAA, incluindo a missão de Apolônio Sales ao Havaí (1935) para estudar irrigação intensiva; (2) em Catende, os investimentos estatais criaram infraestrutura que incluía 47 km de canais principais, 234 km de canais secundários e múltiplos açudes, transformando rios de fluxo sazonal em ambientes aquáticos perenes; (3) estas transformações ecológicas favoreceram a proliferação dos moluscos vetores, com taxas de infestação de até 18,45% nos açudes contra 1,32% nos rios naturais; (4) a prevalência da esquistossomose atingiu 79% entre moradores das áreas ribeirinhas e 64,6% entre trabalhadores rurais, configurando assemblages parasitárias que sincronizavam ciclos biológicos com padrões laborais. A pesquisa conclui que a modernização da Usina Catende exemplifica um padrão histórico de socialização dos custos socioambientais e privatização dos lucros, onde organismos não-humanos emergiram como agentes históricos que impuseram limites e redirecionamentos ao projeto desenvolvimentista, revelando as contradições estruturais entre racionalização produtiva e irracionalidade sanitária que caracterizaram o desenvolvimento capitalista na plantation açucareira nordestina.