Como a cognição se desenvolve em ambientes de opressão? Uma perspectiva enativista
Enativismo. Cognição, Opressão. Saúde Mental.
O panorama clássico da cognição compreende que a mente humana pode ser pensada como um computador que processa estímulos sensoriais e provê respostas comportamentais. Esse tipo de abordagem compreende a mente como algo interno ao sujeito, independente de seu corpo e ambiente. Nesse sentido, problemas psicológicos também passam a ser problemas internos. O seguinte trabalho propõe, a partir da abordagem enativista, uma ruptura com esse modelo ao investigar como a cognição se desenvolve em ambientes de opressão. Defendemos que a cognição não é um processo que ocorre “dentro” do cérebro, mas se constitui ao longo do tempo por meio de interações dinâmicas entre corpo, ambiente e práticas sociais. Assim, os problemas psicológicos não podem ser entendidos como meramente individuais. Eles devem ser situados no meio social e político, que inclui fatores como violência sistemática, pobreza, racismo, LGBTfobia e outras formas de opressão. Em diálogo com Thompson (2007), de Haan (2020a; 2020b; 2021), Maiese (2019), Silva (2020), Colombetti e Di Paolo (2005; 2018), buscamos nos contrapor a modelos que tendem a reduzir o sofrimento a falhas internas ou disfunções neuroquímicas, e investigamos como o enativismo pode ampliar a compreensão de transtornos mentais, especialmente a depressão e ansiedade, para além de mecanismos biológicos ou a déficits individuais e incorporar as dimensões sociais e políticas à constituição da cognição.