No fim da festa a gente vira: Hierarquias Morais e Distincoes Sociais nos Consumos de Cocainas
Cocaína; Crack; Virado; Moralidade; Consumo; Identidade;
Esta tese analisa as percepções de consumidores de pó, virado e crack sobre seus próprios
usos, com o objetivo de compreender como se estruturam as distinções morais entre formas de
apresentação da cocaína na Região Metropolitana do Recife, e de que modo essas distinções
produzem classificações simbólicas sobre os sujeitos, a partir de discursos e práticas
cotidianas. A pesquisa mobiliza uma abordagem qualitativa fundamentada em entrevistas
semiestruturadas com 15 usuários de cocaínas, articulando os planos empírico e teórico por
meio de uma análise sociológica crítica. Do ponto de vista teórico, a tese se ancora nas
contribuições de Pierre Bourdieu, Charles Taylor e Erving Goffman para explorar os
processos de distinção, construção identitária e estigmatização. A partir desses referenciais,
são construídas lentes analíticas que iluminam a constituição de uma hierarquia moral das
cocaínas, expressa tanto nas classificações simbólicas das substâncias quanto nos sentidos
atribuídos aos seus usos e aos seus consumidores. As tipologias de consumidores
identificadas expõem estratégias de manejo identitário diante do estigma e mecanismos de
legitimação moral que oscilam entre ocultamento, justificativa e reconhecimento social. Tais
estratégias também variam conforme o contexto de uso (público ou privado), a espacialidade
urbana e a vigilância exercida pelo modelo repressivo atual. Analisa ainda as hierarquias entre
pó, virado e crack, vinculando pureza, sujeira e moralidade às práticas de consumo. Conclui
que o consumo de drogas é um campo de disputa moral onde normas sociais, controle estatal
e desigualdades estruturais definem quem pode usar drogas de forma mais ou menos
marginalizada, revelando tanto violências simbólicas quanto táticas de resistência e
reinscrição identitária pelos usuários. A tese contribui para os estudos sociológicos sobre
drogas ao propor uma análise que articula moralidade, identidade e desigualdade social,
deslocando o foco da substância em si para os sistemas de valoração e julgamento social que
estruturam a experiência do consumo. Ao investigar como os consumidores operam
significados, o trabalho oferece subsídios para pensar o “problema das drogas” para além de
enquadramentos criminalizantes, segundo interpretações ancoradas em disputas morais e
dinâmicas sociais situadas.