“RACA” COMO CLASSE: repertorio cultural-“racial”-linguistico e estratificacao social
cultura; linguagem; trabalho; “raça”; “gênero”.
O objetivo deste trabalho é estimular discussões sobre a formulação de um método que nos permita incorporar outros aspectos na análise da categoria “racial”, adicionando devidamente um componente cultural-linguístico ao tradicional componente fenotípico. Defendo a utilização de um princípio de similitude cultural-“racial”-linguística como fator organizador da análise de classes, argumentando que, nas sociedades multiculturais-“multirraciais”, surgidas a partir da colonização branco-europeia, e que têm o escravagismo “racializado” como modo de produção fundador, é necessário assumirmos o princípio não de classes econômicas em disputa, mas de classes culturais-“raciais”-linguísticas em disputa. A “raça” deve ser interpretada como construto sociocultural, conformado a partir da junção de certo patrimônio genético (ou certo fenótipo) e certo repertório cultural-linguístico (ou certo ethos cultural-“racial”- linguístico). Falo sobre a existência de um contínuo “racial”, baseado em tipos ideais abstratos, formado a partir de um extremo afro-indígena, em oposição a um extremo branco-europeu, defendendo a existência de matrizes culturais-“raciais”-linguísticas autônomas, que não se referenciam nos mesmos valores, ou seja, seus núcleos ideológicos são absolutamente distintos. Para exemplificar a questão, observo o caso das mulheres trabalhadoras domésticas. O trabalho reprodutivo de “gênero” é comumente apontado como fator capaz de articular uma agenda global de luta das “mulheres”, unificando-as em uma “classe de sexo”, entretanto, é importante investigar de que diferentes modos mulheres afro-indígenas e brancas significam este fenômeno. Estes apontamentos devem nos conduzir ao tema central deste estudo, a respeito dos modos diferenciais empregados por mulheres afro-indígenas e brancas na construção de sua mulheridade, e ao questionamento sobre como produzir coalizões políticas eficientes considerando as diferenciações identificadas. O texto a seguir divide-se em: [1] discussão teórica e [2] análise das práticas sociais dos sujeitos.