URBANIZACAO DO DESASTRE: MINERACAO, RISCO E DESLOCAMENTO EM MACEIO
DESASTRE URBANO; MACEIO
Este projeto investiga o desastre socioambiental de Maceió, decorrente da exploração de sal-gema pela Braskem, como expressão paradigmática da urbanização do desastre. Diferentemente de eventos súbitos, trata-se de um processo de degradação lenta e cumulativa, que resultou na subsidência de bairros inteiros, no deslocamento compulsório de mais de 57 mil pessoas e na dissolução de territórios urbanos consolidados. O caso de Maceió permite analisar como práticas corporativas predatórias, regimes neoliberais de governança e a captura institucional do Estado convertem populações em descartáveis, transformando bairros em zonas de sacrifício e a própria cidade em espaço progressivamente inabitável.
Do ponto de vista teórico, a pesquisa articula três campos principais: (i) a sociologia dos desastres, que entende catástrofes não como anomalias, mas como extensões da normalidade social; (ii) a sociologia do risco, que evidencia a produção deliberada de incertezas e a desigual distribuição de vulnerabilidades; e (iii) os estudos de justiça ambiental e ecologia política, que analisam como corpos e territórios são tornados descartáveis em economias extrativas. A hipótese central é que Maceió exemplifica uma forma contemporânea de violência ambiental, a urbanização do desastre, na qual exploração mineral, racionalidades corporativas e precarização urbana se entrelaçam para reconfigurar tanto o espaço físico quanto as memórias coletivas e identidades territoriais.
Metodologicamente, adota-se um estudo de caso qualitativo, ancorado em análise documental, entrevistas com moradores e lideranças comunitárias, além de observação direta nos territórios afetados. A triangulação de técnicas permitirá captar as dimensões materiais, simbólicas e políticas do desastre, compreendendo-o como processo social historicamente produzido.
Ao problematizar o caso de Maceió, a pesquisa contribui para três debates interligados: os limites da governança neoliberal do risco, os impactos sociais da mineração em contextos urbanos e a formulação de categorias analíticas capazes de apreender temporalidades lentas de destruição territorial. Mais do que mapear perdas, o estudo busca compreender como comunidades elaboram resistências, constroem contra-narrativas e reivindicam justiça ambiental. Assim, insere o caso brasileiro em um diálogo internacional sobre os modos pelos quais o capitalismo extrativo reconfigura cidades do Sul Global, transformando-as em laboratórios de risco, deslocamento e desigualdade.