Regimes de visibilidade em territórios da pobreza: estigmas de uma comunidade do Recife e os traumas,
tramas e resistências de seus moradores – o caso da Livroteca Brincante do Pina
Pina (Recife). Território pesqueiro. Artes de narrar. Análise de narrativa. Etnografia urbana
Regimes de visibilidade; Estigmatização territorial; Comunidade do Bode; Práticas de resistência;
Livroteca Brincante do Pina
Esta tese investiga como operam os regimes de visibilidade em territórios da pobreza urbana, tendo como
foco o bairro do Pina e a comunidade do Bode, no Recife, e as dinâmicas políticas e culturais promovidas
por uma organização coletiva local, a Livroteca Brincante do Pina. O estudo investiga como práticas
discursivas hegemônicas consolidaram, ao longo do tempo, regimes de representação estigmatizantes
associados ao território do Bode, afetando profundamente a forma como seus moradores se percebem e
são percebidos. Em contrapartida, a pesquisa evidencia que ações coletivas populares, particularmente as
da Livroteca e sua rádio comunitária A V oz da Lama, vêm se constituindo como formas de resistência
potentes na promoção da ressignificação do território e na construção de novas identidades coletivas. O
trabalho fundamenta-se em um referencial teórico interdisciplinar, que inclui Loïc Wacquant, Michel
Foucault, Michel de Certeau e Jacques Rancière, para compreender as relações entre poder, subjetivação e
a construção de sentidos em territórios de identidades deterioradas. As discussões são atravessadas pelas
noções de governamentalidade, estigmas territoriais, contraconduta e partilha do sensível, com foco na
intersecção entre práticas culturais e políticas. A pesquisa adota uma abordagem qualitativa e
multimetodológica que combina levantamento bibliográfico, com análise narrativa de entrevistas em
profundidade com moradores, observação direta do cotidiano da Livroteca e análise de conteúdo das
produções midiáticas de sua rádio. Esses caminhos investigativos permitiram compreender como práticas
de resistência e expressões artísticas se entrelaçam na produção de sentidos e na emancipação social no
Bode. O trabalho demonstra que os sujeitos da Livroteca, especialmente aqueles envolvidos com a
comunicação comunitária, desempenham um papel central na contestação dos estigmas associados ao
território. Por meio de uma série de ações, estratégias e astúcias midiáticas, chamadas de artes de resistir,
esses sujeitos coletivos constroem narrativas que ressignificam as percepções acerca do espaço habitado,
transformando-o em um lugar de criatividade, resistência e pertencimento. A pesquisa conclui que
iniciativas coletivas como a Livroteca, se destacam como espaços poderosos de emancipação nos
territórios da pobreza. Elas promovem a reimaginação do habitat e de suas relações sociais, além de
impulsionarem o surgimento de outras identidades coletivas e éticas de solidariedade, essenciais ao
enfrentamento das desigualdades estruturais da cidade contemporânea.