GÊNERO E PODER NO CINEMA PERNAMBUCANO: redistribuição, reconhecimento e representação frente à política pública de fomento estadual
gênero; divisão sexual do trabalho; cinema pernambucano; políticas culturais; redistribuição e reconhecimento; representação política.
Esta dissertação investiga a distribuição de gênero nas funções de direção e produção na cadeia produtiva do cinema pernambucano entre 2010 e 2021, articulando-se à mediação exercida pela política pública estadual de fomento, o Funcultura Audiovisual. Compreendendo o cinema como forma cultural moderna atravessada por disputas de legitimidade e autoridade simbólica, o trabalho articulou os debates sobre cultura e políticas culturais às contribuições da teoria de gênero, da divisão sexual do trabalho e das desigualdades categoriais. De caráter descritivo-explicativo, com dimensão exploratória, a pesquisa adota abordagem predominantemente quantitativa, baseada na sistematização longitudinal dos dados institucionais e na análise quantitativa de percepções coletadas por instrumento estruturado, sendo complementada por etapa qualitativa interpretativa. A análise orienta-se pelas três dimensões da justiça, conceituadas por Nancy Fraser: a dimensão da redistribuição orienta a análise sobre o acesso aos recursos por gênero; a do reconhecimento estrutura a análise das hierarquias simbólicas associadas às funções de direção e produção; e a da representação (ou enquadramento) permite problematizar os limites institucionais e políticos da participação e da legitimidade no interior da política pública. Os resultados indicam que, embora tenha predominado uma concentração masculina nas funções de maior prestígio simbólico, especialmente na direção, observa-se ao longo da década uma trajetória de crescimento da participação feminina e momentos de aproximação orçamentária entre os gêneros, impulsionados pela introdução de mecanismos indutores e ações afirmativas. A equiparação alcançada nos anos finais do período demonstra a eficácia redistributiva da política, ainda que sua retração posterior revele a instabilidade desses avanços. Sustenta-se, assim, que a redistribuição de recursos, embora necessária, não implica transformações substanciais das hierarquias de reconhecimento nem reconfiguração dos mecanismos de enquadramento que estruturam o poder no campo, evidenciando que as desigualdades persistem em dimensões econômicas, simbólicas e políticas inter-relacionadas.