FATORES AMBIENTAIS QUE INFLUENCIAM NOS PROCESSOS DE ACIDIFICAÇÃO E DESOXIGENAÇÃO EM ECOSSISTEMAS COSTEIROS DO NORDESTE DO BRASIL
Sistema carbonato; Eutrofização; Monitoramento de alta frequência, ambiente costeiro
Os ecossistemas costeiros tropicais estão entre os ambientes marinhos mais vulneráveis às interações entre o aporte continental, a eutrofização, a acidificação e a desoxigenação. Dessa forma, foram avaliados os principais fatores ambientais associados à variabilidade físico-química e biogeoquímica em ecossistemas costeiros do litoral de Pernambuco, por meio da integração de monitoramento contínuo de alta frequência e de amostragens discretas em ambientes estuarinos e recifais. As análises abrangeram os estuários dos rios Formoso e Sirinhaém, o recife costeiro de Pontal de Serrambi, no litoral sul de Pernambuco, além dos ambientes recifais de Jaguaribe e Forte Orange, no litoral norte, com ênfase na dinâmica do sistema carbonato, no oxigênio dissolvido e na influência hidrodinâmica sobre a qualidade da água. O monitoramento contínuo realizado durante 58 dias no recife de Pontal de Serrambi revelou ciclos diurnos pronunciados de temperatura, pH e concentração de íons de hidrogênio ([H⁺]), associados principalmente à variabilidade metabólica do ecossistema recifal. A temperatura variou entre 25,78 e 29,95 °C, enquanto o pH oscilou entre 7,82 e 8,34, com valores menores registrados durante a madrugada e máximos no período diurno. A concentração de [H⁺] apresentou comportamento inverso ao do pH, variando de 4,58 a 15,12 nmol kg⁻¹. As análises espectrais (periodograma e wavelet) confirmaram predominância da periodicidade diel nas variáveis biogeoquímicas, enquanto a maré apresentou sinal semi-diurno, atuando como moduladora física secundária. As campanhas discretas evidenciaram forte controle sazonal e espacial sobre as condições ambientais, com clara separação entre os períodos chuvoso e seco. Durante a estação chuvosa, observou-se redução da salinidade e aumento das concentrações de nutrientes dissolvidos nos estuários, o que reflete maior influência continental e intensificação de processos heterotróficos. Os ambientes recifais apresentaram características mais marinhas, com maiores concentrações de oxigênio dissolvido e menor enriquecimento nutricional. O índice TRIX variou entre estados oligotróficos e mesotróficos, indicando maior tendência à eutrofização em ambientes sob influência estuarina. No litoral norte, Forte Orange apresentou maior variabilidade hidrológica, com salinidade média de 33,92 ± 2,67, valores médios de pCO₂ superiores a 900 µatm e saturação de aragonita reduzida (ΩAr = 2,30 ± 0,81), indicando maior vulnerabilidade à acidificação costeira sob influência estuarina. Em contraste, Jaguaribe exibiu características mais oceânicas, com alcalinidade total média de 2409,98 ± 104,11 µmol kg⁻¹, pH médio de 7,91 ± 0,10 e ΩAr de 3,10 ± 0,44, o que reflete condições relativamente mais favoráveis à calcificação. De forma integrada, os resultados demonstram que a interação entre a descarga continental, a sazonalidade pluviométrica, o metabolismo biológico e a circulação costeira regulam a dinâmica do sistema carbonato e do oxigênio dissolvido nos ecossistemas estudados, promovendo episódios transitórios de acidificação e maior variabilidade biogeoquímica, especialmente durante o período chuvoso. A integração entre séries temporais de alta frequência e amostragens discretas permitiu identificar mecanismos não detectáveis em campanhas pontuais, fornecendo subsídios científicos relevantes para o monitoramento e a gestão de ecossistemas costeiros tropicais diante das mudanças ambientais.