LOCAL ECOLOGICAL AND CONSERVATION KNOWLEDGE IN URBAN AND RURAL FISHING COMMUNITIES OF PERNAMBUCO IN THE FACE OF GLOBAL CHANGE
Etnoecologia. Pesca artesanal. Conservação de manguezais. Sistemas socioecológicos. Cogestão adaptativa.
As comunidades pesqueiras dependentes dos manguezais estão cada vez mais expostas a pressões sobrepostas associadas à poluição, à urbanização, ao turismo e à variabilidade climática, embora o monitoramento ecológico de longo prazo ainda seja limitado em muitos sistemas costeiros tropicais. Neste estudo, investigamos o Conhecimento Ecológico Local e de Conservação (LEK) e as percepções sobre governança em dois territórios pesqueiros contrastantes de Pernambuco, Brasil: a Ilha de Deus, uma comunidade estuarina urbana localizada em Recife, e Rio Formoso, um município costeiro predominantemente rural. Com base em 80 entrevistas semiestruturadas realizadas entre 2023 e 2024, analisamos a riqueza de espécies percebida, as mudanças temporais na abundância, o conhecimento sobre habitats, a percepção dos impactos de diferentes fatores ambientais e os principais atores da governança. Os pescadores registraram 78 espécies nativas citadas em Rio Formoso e 28 na Ilha de Deus; ao todo, foram registradas 255 citações de organismos marinhos e estuarinos, evidenciando repertórios de conhecimento mais amplos e heterogêneos em Rio Formoso do que na Ilha de Deus. Apesar dessas diferenças territoriais, ambas as comunidades relataram uma forte percepção de declínio dos recursos associados aos manguezais e estuários, especialmente moluscos, crustáceos e peixes, sendo a poluição identificada como o principal fator responsável por esse processo. As chuvas também foram consistentemente percebidas como um fator negativo, enquanto o calor apresentou interpretações mais ambivalentes. Os resultados sobre governança revelaram o papel central das colônias de pescadores e das associações locais, mas também evidenciaram ausências institucionais, conflitos e pressões territoriais distintas entre os dois contextos. Argumentamos que o Conhecimento Ecológico Local constitui não apenas uma importante fonte de informações sobre a biodiversidade, mas também uma interpretação socialmente situada das mudanças ecológicas e das falhas de governança. A integração desse conhecimento em estratégias adaptativas de cogestão pode fortalecer as ações de conservação em pescarias de manguezais diante dos desafios impostos pelas mudanças globais.