Avaliação do status inflamatório sérico de trabalhadores expostos a queima da cana-de-açúcar com potencial para rastreio de neoplasia pulmonar
Queima da cana-de-açúcar; Câncer de pulmão; Biomarcadores; Marcadores inflamatórios; Saúde ocupacional.
A queima da cana-de-açúcar, é uma prática agrícola amplamente observada no Brasil e
responsável por liberar uma grande quantidade de poluentes atmosféricos. Estima-se que quatro
milhões de toneladas de cana sejam queimadas antes da colheita, impactando o meio ambiente e
a saúde humana. Os aerossóis gerados liberam material particulado capaz de atravessar a barreira
pulmonar e desencadear processos inflamatórios associados a doenças respiratórias e o câncer de
pulmão. Assim, a presente pesquisa objetiva avaliar a prevalência e a mortalidade do câncer de
pulmão entre trabalhadores da cana-de-açúcar por meio da análise espacial e avaliar oo status
inflamatório sérico de trabalhadores expostos a queima da cana-de-açúcar com potencial para
rastreio de neoplasia pulmonar. Foram conduzidos dois deliniamento de pesquisa: um estudo
transversal e ecológico e outro de caso-controle. Na primeira etapa os dados foram obtidos junto
ao Integrador Registro Nacional de Câncer de Base Populacional do estado de Pernambuco, para
avaliar o perfil sócio-demográfico e ocupacional e subsidiar a análise espacial por meio do
cálculo da taxa de prevalência e mortalidade por câncer de pulmão na zona canavieira de
Pernmabuco. O estudo de caso-controle incluiu trabalhadores que exercem atividade canavieira e
voluntários não-expostos, no qual foram coletados amostras de sangue periférico para análise das
interleucinas IL-2, IL-4, IL-6, IL-10, IL-17, TNF e INFγ. A análise estatística envolveu o cálculo
de dispersão e tendência central, qui-quadrado, exato de Fisher e bootstrap. Na primeira etapa,
foram analisados 380 casos de câncer de pulmão, 155 residentes na Zona da Mata Sul, 167 na
Zona da Mata Norte e 58 em Vitória de Santo Antão. Os pacientes eram predominantemente do
sexo masculino (50%), idade superior a 60 anos, casados (44,2%), pardos (45,7%), baixa
escolaridade (37,1%) e ocupação agrícola (25%). Mais da metade dos (54,2%) apresentavam
algum fator de risco e o subtipo histológico adenocarcinoma foi o mais frequente (30,7%).
Observou-se que 57,8% estavam em estágio avançado, 16,5% evoluíram para óbito. O maior
número de casos ocorreu entre 2009 e 2019 e a freqüência de óbitos concentraram-se entre 2013
e 2018, posterior às décadas de maior intensidade da safra (1980–1990). As maiores taxas de
prevalência foram observadas em Ribeirão e Aliança (62,7 e 55,85) e as de mortalidade em
Jaqueira e Tracunhaém (42,95 e 29,27), ambos ajustados para 100 mil habitantes). Em relação às
citocinas, houve aumento significativo de IL-6 em trabalhadores expostos (11,69 ± 7,93) em
comparação aos controles (8,07 ± 4,81). A IL-17 foi mais elevada em trabalhadores com mais de
10 anos de exposição, IL-4 em indivíduos com maior produtividade diária e a IL-2 naqueles que
relataram sintomas respiratórios. Conclui-se que houve incremento progressivo dos casos de
câncer de pulmão ao longo dos anos, com desfechos desfavoráveis e provável relação com a
exposição ocupacional à queima da cana-de-açúcar. A elevação de IL-6 sugere a presença de
resposta inflamatória aguda e crônica, potencialmente associada à exposição à fuligem,
destacando essa citocina como um potencial biomarcador de exposição e efeito biológico nesse
contexto ocupacional.